Artemisia
Tremi. Não sei se de medo ou de vergonha. Puxei o lençol e me cobri.
— E o que isso mudaria no nosso caso, Felipe? Tenho certeza de que você não chegou à minha cama virgem.
Falei enquanto me enrolava no lençol e me levantava.
— Tenho vinte e oito anos, Artemisia. Houve outras fêmeas, mas nenhuma foi importante para mim.
Ele bufou, irritado, me observando como um gato encara o rato. Nem se deu ao trabalho de cobrir a própria nudez.
Peguei o diagnóstico e a receita dentro da bolsa e estendi para ele.
— Sinto muito que suas amantes não tenham significado nada para você.
Felipe tomou os papéis da minha mão e os analisou com atenção.
— Você disse que queria que eu fosse ao médico. Está aí.
Depois de ler, ele ergueu o olhar, visivelmente constrangido.
— O que exatamente você sente? Porque você estava… úmida. Seu corpo estava pronto. Eu me certifiquei disso todas as vezes em que estivemos juntos…
A voz dele perdeu a firmeza.
Respirei fundo.
— Eu e Aquiles não somos fruto de uma traição, como todos comentam. Somos filhos... de um estupro. E ela acha que eu preciso de terapia, mas a médica era humana. Não sei os efeitos em mim como loba, irei a uma curandeira assim que possível.
Ele ficou imóvel, continuei explicando.
— Minha mãe tentou enterrar essa história. Só alguns mais velhos sabem. Eu e Aquiles descobrimos aos dezoito anos. Ela tentou nos poupar.
Felipe sentou ao meu lado.
— Me desculpe…
— Não há o que desculpar. Eu era virgem, não tinha como você saber. E só procurei a ginecologista porque você estranhou. Caso contrário, eu continuaria achando que era normal.
Ele me olhou decidido.
— Procure os melhores profissionais. Contrate quem for necessário. Quero alguém no nosso território até você estar bem.
— Eu vou providenciar. Mas prefiro consultas online. Já tive interações demais nesses dias.
Ele assentiu, ainda me estudando.
— E o Aurin?
— Eu fui apaixonada por ele na adolescência.
Mas Aurin espera a companheira dele. Nunca me olhou como algo além de uma irmã.
O silêncio ficou pesado.
—Entendo. E por mim, Temi?
O olhar dele carregava algo que eu ainda não podia oferecer.
— Eu sinto desejo. Como nunca senti antes.
O maxilar dele travou. Seu corpo ficou tenso.
Respirei fundo e comecei a vestir o pijama, fugindo daquele olhar sombrio.
— Por enquanto, isso basta — ele murmurou. Não sei se para si mesmo ou para mim.
Duas batidas fortes na porta me fizeram sobressaltar.
— Temi! Me ajuda!
Corri para abrir.
Liliane estava praticamente escarranchada no meu irmão. Ele parecia aflito; ela, sorria como uma boba, com as faces coradas denunciando que estava bêbada.
Entendi imediatamente o dilema de Aquiles. Ele não resistiria dez minutos com ela implorando daquele jeito.
— Oi, Luna… — a voz dela embolava. — Parece que não demos sorte no casamento do seu irmão. Nenhuma de nós vai namorar.
Ela levantou o dedo como se estivesse fazendo uma declaração solene.
— O que eu faço com você, sua maluquinha?
Liliane se levantou e começou a desabotoar o vestido, que caiu no chão. Tirou o sutiã e o lançou no canto do quarto.
— Eu não fiz nada. Literalmente nada.
Deitou na minha cama e se cobriu, dando tapinhas ao lado para que eu me deitasse também.
— Escuta, Luna… Depois do seu irmão me dar orgasmos magníficos sem sequer entrar em mim… Quer dizer, ele usou a língua e foi maravilhoso…
Humm. As coisas estavam pegando fogo — e duvido que esfriem tão cedo. Aquiles realmente está apaixonado.
Gosto do fato de que ele nunca teve medo de mim. Foi o único que ousou me treinar quando meus poderes estavam desestabilizados.
— Ela ainda não tem a loba. E se guardou para o companheiro.
— Deixou para ter uma noite especial achando que esse companheiro é você...
Olhei com atenção.
— Como sabe?
Ele riu. Tirando um fiapo invisível do seu terno. Tem mais aí do que ele quer contar.
— Você não deixaria brechas. Um macho com garras de gelo anseia por conexão. E, com a sua fama, já é difícil.
Suspirei.
— Eu acho que ela é minha companheira. Meu lobo fica calmo perto dela. Teve um dia… ele jurou que o corpo dela respondeu ao chamado.
— O demônio do gelo apaixonado. Vamos ter um lobinho com essa sua cara feia por aí.
— Não quero filhos. Não correrei o risco de perdê-la.
Ele suspirou, cansado.
— E você acha que algum lobo da nossa alcateia tem poder para isso?
Percebi que as coisas entre ele e Temi também não estavam simples.
Eu ia perguntar mais quando o celular dele tocou.
— Estamos voltando — ele disse, levantando-se. — Gustavo precisa de ajuda.
— Vou com você.— Eu nunca tinha visto Gustavo precisar da ajuda antes.
Ele assentiu e seguimos para buscar nossas fêmeas.
No corredor, já ouvimos as gargalhadas. Felipe Bateu na porta. Como ninguém respondeu ele abriu. As duas estavam coradas no meio de uma guerra de travesseiros.
— Vamos. Temos problemas em casa...— Felipe virousse rapidamente e Liliane que estava só de calcinha com um travesseiro na mão, o usou para se cobrir. Que diabos.
No avião seguimos elas de um lado com caras de desconfiadas. Felipe e eu do outro fingindo que não vimos nada.
Quando chegamos na entrada de garras de gelo, entendo o motivo de Gustavo pedir ajuda.
— Artemisia, como exatamente você conseguiu isso em uma semana?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.
A história é fascinante, parabéns ao autor(a). Ela nos vicia a querer saber mais....
Olá, gostaria de saber se já lançou mais algum capítulo além desses que estão aqui. E quando irão lançar?...