Acordei naquela manhã de sábado com um mal humor proporcional à quantidade de coisas que eu não tinha pedido para acontecer na minha vida recentemente.
Arthur tinha aparecido na véspera, batido na minha porta com aquela postura de sempre, e me comunicado que passaríamos o final de semana na fazenda da família. Final de semana. Sozinhos.
Comunicado.
Como se eu não tivesse provas para estudar. Como se eu não tivesse um casamento para organizar, o que, tudo bem, dessa parte eu até ficava feliz em me afastar um pouco. Porque se eu tivesse que decidir entre gérberas e rosas de garden para o buquê, eu não respondia pelos meus atos. Mas o fato era que ele tinha decidido e estava me avisando, e aparentemente eu não tinha direito de dizer não.
Então desci naquela manhã com uma mala pequena e um semblante que qualquer pessoa sensata leria como sinal de perigo.
Ele estava me esperando apoiado no carro.
Um Ford Maverick 1973, vermelho brilhante. Tinha rádio. Tinha banco de couro que cheirava a tempo. E tinha Arthur encostado nele com um copo de café na mão e o ar de quem estava tendo um ótimo começo de manhã.
Cheguei, ignorei a mão que ele estendeu para pegar minha mala e joguei ela no bagageiro sozinha.
Entrei no carro.
Ele entrou também, sem comentar nada, o que foi inteligente da parte dele.
Saímos em silêncio.
Por uns vinte minutos, o único som foi o motor do Maverick e o vento pela janela entreaberta. Então mexi no rádio e encontrei uma estação com algo que eu gostava. Trinta segundos depois, ele trocou.
Olhei para ele.
Troquei de volta.
— O carro é meu — ele disse, sem tirar os olhos da estrada.
— Todo mundo sabe que quem escolhe a música é o carona.
Ele revirou os olhos. Mas não trocou de novo.
Vitória pequena, mas vitória.
— Essa fazenda fica longe? — perguntei, depois de um tempo.
— Não muito. Perto o suficiente para irmos de carro.
— Ah. — Olhei pela janela. — Porque a outra opção seria de bicicleta?
— Se fosse mais longe, iríamos de helicóptero.
Fiquei olhando para ele por uns três segundos.
— Claro. Helicóptero. Um transporte de dia a dia completamente normal.
Ele não respondeu, mas o canto da boca se mexeu.
A estrada foi ficando mais estreita conforme avançávamos, e o asfalto foi dando lugar a um cascalho irregular que fazia o Maverick chacoalhar de um jeito que eu achei charmoso nos primeiros cinco minutos e irritante nos dez seguintes. Fui comendo os biscoitos que tinha jogado na bolsa antes de sair, encostada no banco, observando Arthur ficar progressivamente mais tenso conforme a estrada piorava.
Foi quando o carro começou a falhar.
Um solavanco. Depois outro. Depois uma tosse mecânica que não era boa em nenhum idioma.
— Que foi isso? — perguntei.
— Nada — ele disse, como quem não quer acreditar no que está ouvindo.
— Não pareceu nada.
— Está tudo bem.
Mas não estava.
O carro parou.
Arthur ficou olhando para o painel por um segundo, como se a força do olhar pudesse reverter a situação. Depois desceu, foi até o capô e abriu com a energia de quem vai resolver o problema agora.
Saí atrás e parei ao lado dele. Ele estava olhando para o motor com muita seriedade e nenhum resultado prático. Soltei uma risada.
— Por que você está rindo? — ele perguntou, sem tirar os olhos do motor.
— Porque você está fingindo muito bem que sabe para o que está olhando.
— É claro que eu sei.
Ficou mais trinta segundos em silêncio.
— Tá, eu não faço ideia — admitiu, por fim. — Mas meu celular está sem sinal. Posso voltar andando até a estrada principal e tentar conseguir ajuda.
— Ou — eu disse, empurrando ele de lado com o ombro — pode me deixar dar uma olhada.
— Engraçado. — Ele riu baixo, e o riso chegou quente perto do meu ouvido. — Você não reclamou da minha técnica de encaixe da última vez.
Parei por um segundo, sem virar.
Senti antes de ouvir que ele estava ainda mais perto.
— O princípio é o mesmo — a voz saiu baixa, quase no meu pescoço. — Força na medida certa. Sem pressa. Atingindo o ponto certo.
Empurrei a mangueira no encaixe com mais força do que o tecnicamente necessário.
— Resolvido.
Ele olhou pro encaixe. Depois para mim, e havia naquele olhar algo que não era mais sobre mangueira nenhuma.
— Quase. Ainda está vazando um pouco.
Fechei o capô com força, me endireitei e me virei.
Ele estava colado em mim e não recuou.
— Mas deve dar pra chegar na fazenda — conclui.
Ele não respondeu de imediato. Ficou me olhando com aquela calma que eu já tinha aprendido a reconhecer como o sinal mais perigoso do repertório dele.
— Talvez a gente deva fazer um teste.
— Que tipo de teste?
— Só ver se o encaixe não vai romper com o balanço... da estrada.
A mão dele subiu devagar pelo meu braço, sem pressa, como se estivesse avaliando a situação. Parou no meu ombro. O polegar traçou um movimento quase imperceptível contra a minha pele, e aquilo foi suficiente para fazer minha respiração mudar de ritmo sem minha autorização.
— E como você pretende testar isso? — Consegui perguntar.
Ele inclinou a cabeça, os olhos descendo por um segundo para a minha boca antes de voltar. A mão saiu do meu ombro e foi para a minha cintura, puxando com uma firmeza que não deixava dúvida sobre a intenção.
— Eu tenho uma ideia.
Me jogou em cima do capô num movimento único e me beijou com uma voracidade que não pediu licença para nada.

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