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INVENTEI UM NAMORADO E ELE ERA MEU NOIVO BILIONÁRIO romance Capítulo 59

Ficamos assim por um tempo que não soube medir. Ele com o braço em volta dos meus ombros, eu com a cabeça apoiada nele, ouvindo o Chet Baker se repetir num loop suave que nenhum dos dois interrompeu. O escritório tinha aquela quietude específica de quando a noite entra sem pedir licença e resolve ficar.

Não precisávamos de palavras.

Às vezes o silêncio entre duas pessoas diz exatamente o que precisa ser dito.

Mas, em algum momento, senti o peso do dia todo desabando de uma vez. O cansaço acumulado de semanas tentando me encaixar numa vida que ainda estava grande demais para mim em alguns pontos e apertada demais em outros.

Me espreguicei levemente e me sentei melhor.

— Preciso tomar um banho e dormir — murmurei. — E o senhor deveria fazer o mesmo.

Augusto me olhou com aquele sorriso de quem não tem a menor intenção de fazer o que acabou de ouvir, mas acha engraçado a sugestão.

— Amanhã vai ser um dia longo — continuei. — O senhor precisa me ajudar escolher o sabor do bolo.

Eu disse aquilo rindo, porque, honestamente, a ideia de um homem de oitenta e sete anos que já carregou impérios nas costas tendo que se pronunciar sobre o recheio do bolo do casamento da neta ainda me parecia absurdamente doméstica.

Augusto também riu.

Mas depois ficou quieto de um jeito diferente.

O sorriso foi ficando mais suave, mais cuidadoso, como quando alguém está prestes a dizer algo que ponderou por tempo demais.

— Minha querida... — ele começou. — Não quero cometer com você o mesmo erro que cometi com sua mãe. Não quero carregar o peso de ter controlado a vida de alguém e guiado ela para onde não queria ir.

Fiquei quieta.

— Quando Eduardo e eu fizemos esse acordo, pensamos em proteger o nosso império. — Ele abriu as mãos no colo, como se estivesse examinando alguma coisa que não estava lá. — Mas não pensamos que por trás dele haveria duas pessoas. Com vontades, sentimentos, vidas independentes. Hoje, conhecendo você e o Arthur, ainda acredito que se dariam muito bem juntos. Ainda acredito que ele seria a pessoa certa para cuidar de você pelo resto da sua vida.

Parou.

— Porque um dia eu não estarei mais aqui. E venho sentindo que esse dia pode estar cada vez mais próximo.

— Não fala isso! — briguei com ele antes de conseguir me controlar. — O senhor ainda vai viver muito.

Ele fez um carinho no meu cabelo com uma paciência que não concordava com o que eu tinha dito, mas que também não ia contradizer.

— O que quero dizer — continuou — é que você não precisa pensar que não tem escolha. Você tem. E apesar de eu realmente acreditar que vocês seriam perfeitos um para o outro... se você me disser que não quer se casar, a gente cancela tudo hoje mesmo.

Fiquei olhando para ele, pensativa.

Eu entendia perfeitamente o que meu avô estava dizendo nas entrelinhas. Ele sabia que não ia viver para sempre e, mais do que o acordo ou os sobrenomes ou o império, o que ele queria era não me deixar sozinha no mundo. Não deixar que, quando ele fosse, eu ficasse sem chão de novo.

E eu?

Depois fui ficando quieta, e fui me encostando de volta no ombro dele, e fiquei olhando para a janela do escritório por um momento antes de falar.

— Quer saber um segredo?

Ele não respondeu. Só esperou, com a paciência de sempre.

— Acho que esse casamento pode dar certo. Acho que um dia... poderemos contar pros nossos filhos como nos casamos de uma maneira completamente não convencional, e acabou se tornando a maneira certa.

Fiz uma pausa.

A música continuava baixa, o trompete do Chet Baker arrastando as notas como se soubesse que alguém precisava de mais um segundo antes de terminar o pensamento.

— Acho que gosto dele — disse, por fim. — Acho que gosto do Arthur. Acho que posso amá-lo um dia.

Augusto não disse nada.

Só apertou levemente o meu ombro com a mão que ainda estava em volta de mim.

E aquilo foi suficiente.

Eu ia me casar.

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