Na manhã seguinte, desci para o café de domingo torcendo para encontrar só meu avô à mesa. Durante a semana, o café vinha sendo servido no meu quarto, mas domingo era dia de reunião familiar. Então, torci para que o universo quisesse colaborar me deixando sozinha com Augusto.
O universo, como sempre, achou a minha intenção fofa.
Arthur já estava à mesa.
E estava de bom humor.
Aquele bom humor irritante, silencioso, de quem passou a noite dormindo perfeitamente bem enquanto a outra pessoa passou horas demais revivendo cada segundo da cena na cozinha e tentando decidir se podia ou não se mudar de país por vergonha.
Além dele, também estavam à mesa Augusto, Claire e Geórgia.
Perfeito.
Exatamente o tipo de plateia que eu merecia para uma manhã como aquela.
— Bom dia — falei, tentando soar normal.
Geórgia respondeu primeiro, alegre como sempre:
— Bom dia!
Augusto levantou os olhos do jornal impresso — porque, aos oitenta e sete anos, ele ainda acreditava que notícia de verdade vinha em papel — e me sorriu com aquele calor que sempre conseguia me desarmar um pouco.
— Dormiu bem, querida?
Quase engasguei com o próprio ar, pensando em todas as lembranças e fantasias que tinham passado pela minha mente naquela noite em claro.
Arthur levou a xícara à boca para esconder um sorriso.
Claire reparou.
— Dormi bem, sim — respondi rápido, antes que Geórgia resolvesse perguntar qualquer coisa inconveniente.
Sentei o mais longe possível de Arthur. O que, naquela mesa enorme, ainda não era longe o suficiente.
Um prato já estava posto na minha frente. Frutas, café, pão, manteiga e um silêncio potencialmente letal pendurado no ar.
Tentei me concentrar no pão.
Pão era seguro.
Pão não me lembrava de nada.
Pão não me olhava como se soubesse que, na noite anterior, eu tinha quase beijado meu noivo por contrato depois de quase incendiar a cozinha tentando fazer a sobremesa favorita dele.
— E então? — Arthur perguntou, num tom casual. — Pretende continuar treinando seus dons culinários ou a mansão pode dormir em paz hoje?
Levantei os olhos devagar.
Geórgia já estava sorrindo.
Augusto franziu a testa, curioso.
— Devo perguntar?
— Não — respondi na mesma hora.
Arthur recostou na cadeira, absolutamente satisfeito consigo mesmo.
— Zara resolveu que seria uma boa ideia usar um maçarico culinário sem nunca ter usado um na vida e quase colocou fogo em si mesma.
— E... se aproveitássemos para acrescentar Altieri também? Quero dizer, eu sei que o fato de você ser minha neta não está atrelado a um sobrenome numa certidão de nascimento, mas...
Ele não terminou. Não precisava. Eu entendi.
Não era sobre burocracia.
Era sobre pertencimento.
Olhei para o rosto do meu avô e vi, ali, o tipo de expectativa que não vinha com exigência. Vinha com desejo. Com aquela necessidade quase infantil de tornar alguma coisa oficial para o mundo porque o coração já tinha oficializado fazia tempo.
— Eu adoraria — respondi.
E disse de verdade, mesmo sem nunca ter pensado seriamente no assunto até então.
Augusto sorriu de um jeito que me deu vontade de repetir sim para qualquer coisa que ele quisesse pelos próximos vinte anos.
Claire, claro, achou o momento comovente demais para deixar intacto.
— É claro que adoraria, não é? — comentou, passando manteiga no pão com precisão glacial. — Sartori-Altieri. Um sobrenome que verdadeiramente abre portas.
A frase caiu na mesa com o peso certo de quem sabia exatamente onde cutucar.
— Olha, eu sei que a senhora não gosta de mim, mas não é como se eu tivesse planejado nada disso, tá? — respondi, antes de conseguir me impedir. — Não é como se eu estivesse ansiosa para roubar o sobrenome do seu filho depois do casamento.
— Não, claro que não — disse ela, a ironia pingando de cada palavra.
Depois tomou um gole de café lentamente, pousou a xícara com classe e levantou os olhos para mim de novo.
— Aliás... por falar em ansiedade... Você está ansiosa pelo casamento, Zara? Porque faz tempo que eu não vejo você usando seu anel.

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