O almoço terminou bem melhor do que começou, o que eu atribuí em partes iguais ao peixe e ao fato de que aquelas pessoas eram infinitamente mais diplomáticas do que eu. Arthur pagou a conta de todos com a discrição, o que eu anotei mentalmente como um ponto positivo numa lista que ainda estava muito curta. Quero dizer... da última vez ele saiu fugido do hotel e me deixou no vermelho!
Do lado de fora do restaurante, ele se despediu com uma desculpa qualquer.
— Tenho um sapato para comprar.
Geórgia e Genevieve logo avisaram que iam ao banheiro e desapareceram numa direção enquanto eu ficava parada no corredor do shopping, olhando para as vitrines sem nenhuma pressa específica de chegar a lugar nenhum.
Foi quando a loja me chamou.
Não literalmente, claro. Mas havia algo na iluminação dourada da vitrine, no jeito que as peças estavam expostas em veludo escuro como se fossem coisas importantes, que me fez parar sem ter planejado parar.
Joias.
Desde pequena, eu sempre quis ter uma joia de verdade. Não as bijuterias que a gente comprava em banca de calçada, que até eram bonitas, mas que deixavam a pele verde depois de uma semana. Uma joia de verdade. Algo que durasse.
Me lembrei da caixinha.
Minha mãe tinha uma caixinha de joias que ela guardava com um cuidado absurdo. Às vezes, quando eu era pequena e o dia estava bom e ela estava de bom humor, ela abria a caixinha e me deixava ver tudo. Anéis finos, brincos pequenos, um ou dois colares que ela dizia que eram da avó dela. Eu ficava olhando com a seriedade de quem está examinando um tesouro, porque era exatamente isso que era.
— Um dia vai ser tudo seu — ela dizia. — Pode vender se precisar de dinheiro. É seu pé de meia.
— São tão lindas, mamãe. Não quero vender. Quero usar.
Ela ria daquele jeito dela, baixinho, como se eu tivesse dito algo adorável e ingênuo ao mesmo tempo.
— A gente não tem como usar no lugar onde mora, minha filha.
Mas ela me deixava experimentar mesmo assim. Colocava os colares no meu pescoço, me deixava andar pela casa em cima dos saltos altos dela, rindo enquanto eu tropeçava nos próprios pés tentando parecer elegante.
Sorri sozinha para a vitrine.
Tudo tinha se perdido na enchente. A caixinha, as joias, os saltos. Ela. Tudo.
Mas agora eu tinha dinheiro. E tinha lugar para usar. E havia um colar dourado naquela vitrine, com um pingente delicado que lembrava com uma precisão que me pegou desprevenida um dos colares da caixinha da minha mãe.
Entrei na loja antes de terminar de decidir que ia entrar.
A vendedora me localizou em menos de três segundos. Eu senti o olhar de diagnóstico rápido mesmo sem precisar estar olhando de volta para ela.
— Boa tarde — disse. — Eu gostaria de ver colares. Algo dourado, simples, talvez com um pingente bonito.
— Só para informar — ela respondeu, com uma voz que tinha a delicadeza específica de quem está sendo educada e condescendente ao mesmo tempo — que não fazemos promoção dos nossos produtos.
— Não perguntei isso. Gostaria de ver os colares.
Ela revirou os olhos com uma sutileza que não foi nada sutil e apontou para um lado da loja.
— Fique à vontade.
Não fiquei.
Primeiro porque eu teria gostado de ajuda, considerando que não sabia nem por onde começar naquela quantidade de peças expostas. Segundo porque, apesar de não parecer disposta a oferecer nenhum tipo de assistência, a vendedora também não tirava os olhos de mim, o que me deixava com a impressão clara de que ela estava esperando que eu tentasse guardar algo no bolso ainda que tudo estivesse atrás de vitrines.
Caminhei até o expositor de vidro que ficava no centro da loja. Lá dentro, numa exposição individual que sugeria que aquela peça era especial mesmo dentro de uma loja de peças especiais, estava o colar perfeito.
— Vou acompanhá-la até a saída, senhorita.
— Não vou a lugar nenhum.
— Senhorita...
— Eu disse que não vou.
A confusão foi aumentando de volume aos poucos, como essas situações fazem, até que eu mal percebi quando uma voz soou perto demais, masculina, com aquela cadência específica de quem está acostumado a chegar num lugar e ter a atenção da sala.
— O que está acontecendo aqui?
A vendedora se recompôs em menos de um segundo. Postura, sorriso, tom de voz, tudo mudou de uma vez como se ela tivesse apertado um botão.
— Senhor Sartori. Seja bem-vindo. Sinto muito pela confusão, estamos com um... inconveniente. Como posso ajudá-lo hoje?
Arthur a ignorou completamente e se virou para mim.
— Zara. O que está acontecendo aqui?
— Essa cretina não quer me deixar comprar meu colar.
Ele olhou para a vendedora. Olhou para o colar no expositor. Olhou para mim. Então, com uma calma absoluta que eu não esperava, entrelaçou os dedos nos meus e se virou para a vendedora.
— Posso saber por que não quer atender minha noiva?

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