~ ALÍCIA ~
Terminei o banho enquanto Samuel continuava de costas, imóvel.
A água estava morna e o shampoo cheirava a coco — o tipo de cheiro que não combinava com nada do que tinha acontecido nas últimas horas, o que era ao mesmo tempo reconfortante e levemente surreal. Me sequei, vesti a calça de moletom, que era larga demais e precisei dobrar três vezes na cintura.
— Então... — Comecei, tentando um tom casual. Se eu conseguisse criar alguma ligação com ele, qualquer coisa que fizesse ele ver em mim uma pessoa em vez de um problema, talvez ele fosse mais generoso na hora de decidir o que fazer. Era a única estratégia que eu tinha disponível no momento. — O que a Zara fez pela sua mãe que era tão valioso a ponto de valer qualquer favor?
— Salvou minha vida — ele disse, simplesmente, como se fosse uma resposta que não precisasse de mais nada ao redor.
— Ah... é... realmente parece algo importante.
Ele soltou uma risadinha e se virou exatamente no momento em que eu terminava de colocar a blusa, o que me fez ficar sem graça de um jeito que eu definitivamente não estava esperando.
— Você... levou um tiro ou algo assim? — perguntei, tentando recuperar o fio.
Fazia sentido. A Zara ainda não era formada, mas tinha conhecimento suficiente para ajudar em emergências, especialmente quando não era possível correr para um hospital no meio de um tiroteio.
— Claro. Porque esse é o clichê de favelado, não é?
— Desculpa, eu não quis...
— Só tô brincando com você — ele me interrompeu, com um tom que era genuinamente divertido e não cruel, o que me pegou de surpresa. — Mas... foi o outro clichê. Indo pelo caminho errado. Ela e minha mãe eram próximas, e a Zara me arrumou um emprego decente, uns livros de medicina. Me deu com o que sonhar. Minha mãe sempre foi grata.
Processei aquilo por um segundo. A Zara arrumando emprego e livros para alguém que estava indo pelo caminho errado. A Zara que eu tinha passado anos tratando como adversária, que eu tinha descontado em tudo que eu achava injusto na minha vida, que eu tinha responsabilizado pela posição que eu mesma não tinha conseguido manter.
Não disse nada sobre isso. Engoli e foquei no que importava.
— Grata o suficiente para você herdar essa dívida? — Disse, porque não custava tentar. E eu precisava tentar.
— Você não entende, não é? — Ele abriu a porta do banheiro e foi em direção ao quarto, e eu fui atrás porque não havia mais nada para ficar fazendo naquele banheiro.
— O que eu não entendo?
Ele fechou a porta do quarto e baixou a voz.
— Você é uma fugitiva do Marreta. — Falou com aquela objetividade calma de quem está explicando um fato da natureza. — Eu não quero acabar com a cabeça esmagada.
— O Marreta nem sabe que eu fugi ainda — disse, com mais confiança do que eu sentia. — E quando ele voltar, vai estar muito mais preocupado com a Zara do que com qualquer outra coisa.
— O que quer dizer? O que aconteceu com ela?
— Nada, por enquanto. Ela vai saber ganhar tempo — dei um passo em direção a ele, mantendo o olhar. — Então, quanto antes você me ajudar a sair daqui, mais tranquilo vai ser. Se você ficar pensando demais, aí sim você está certo... vai dar tempo de fechar o cerco. Mas ele não fecha um cerco que ainda não sabe que precisa ser fechado.
Por uma fração de segundo ele só me encarou. E eu podia ver — conseguia sentir, naquele silêncio que precede uma decisão — que estava quase lá. Ele estava quase cedendo. Só precisava dizer mais uma coisa certa para cruzar a linha.
— Além disso... minha família tem muito dinheiro. Eles vão te recompensar bem e...
Ele soltou uma risadinha. Curta, irônica, que me fez calar antes que eu terminasse a frase.
— Claro. Porque você e sua família são do tipo que acha que pode comprar qualquer um, não é? Não vai rolar, garota.
Saiu e bateu a porta atrás de si.
Fiquei parada no meio do quarto dele, olhando para a porta fechada, com a sensação de quem estava tão perto e estragou tudo no último segundo.

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