~ ARTHUR ~
Saí do restaurante com um nó no estômago que não era fome.
Fome eu tinha. Não toquei no prato. Mas o que estava se instalando no meu peito enquanto eu atravessava as ruas de volta ao hospital era outra coisa — uma mistura de confusão, revolta e algo que eu preferia não nomear mas que se parecia muito com culpa.
Encontrei Thomas na lanchonete do hospital, com o sanduíche de queijo e presunto de sempre na frente e aquela expressão de quem está em paz com o mundo. A paz durou até eu abrir a boca.
— Eu vou ser pai.
Ele levantou os olhos do sanduíche com uma lentidão que dizia que o cérebro estava processando antes do rosto reagir.
— O quê?
— Zara está grávida. — Me sentei na cadeira de frente. — Não que minha primeira frase precisasse de explicação, mas...
— Parabéns! — O sorriso apareceu rápido, genuíno, e ele me deu um tapinha no ombro com aquela firmeza de quem está feliz de verdade. — Não aceito não ser o padrinho.
— Eu adoraria te fazer esse convite. Mas primeiro eu preciso que minha mulher me dê essa notícia.
Ele parou.
— Espera... O quê? Zara está grávida ou não está?
— Está. Mas está escondendo de mim.
Contei tudo. O almoço que não foi almoço, Genevieve aparecendo na salinha com aquela expressão de quem tem algo importante e não sabe se deve falar, a forma como ela foi construindo a conversa antes de soltar a informação, as insinuações sobre o motivo de Zara estar guardando aquele segredo. E o beijo.
Thomas ficou em silêncio por um momento.
— Eu sempre te disse. Essa garota é apaixonada por você. Você não acredita.
— Eu não sei. Ela sempre me pareceu uma boa amiga.
— Boas amigas não controlam sua vida do jeito que ela controla. — Ele largou o sanduíche sobre o prato com aquele gesto de quem vai falar sério. — Um conselho aqui, uma opinião ali, uma ajuda para escolher a aliança da sua noiva de lá. Isso pra mim é coisa de gente que se faz de sonsa enquanto ganha espaço. E você sabe muito bem o que eu penso de gente sonsa.
Não respondi.
Porque se eu parava para pensar no que ele estava dizendo, sim, Genevieve era sempre boazinha demais. Sempre disponível, sempre com a palavra certa, sempre sabendo exatamente onde aparecer e quando. Quando a Zara estava vulnerável, a Genevieve estava lá. Quando havia decisões importantes a tomar, a Genevieve tinha uma opinião. Quando o casamento estava sendo planejado, ela se inseriu em cada detalhe com aquela naturalidade de quem achava que tinha direito de estar ali.
E eu deixei. Porque sempre pareceu cuidado. Porque era mais fácil interpretar como amizade do que como interesse.
E hoje, quando ela me beijou e eu fiquei furioso com o que ela tinha feito, ela deu um jeito de virar o jogo em questão de minutos. Transformou o erro dela em uma história sobre lealdade, sobre amizade não reconhecida, sobre ela tentando me proteger da Zara. Saiu com aquela dignidade ofendida de quem foi incompreendida. E eu tinha quase acreditado, porque era Thomas que eu precisava para ouvir aquilo de fora e entender o que estava acontecendo.
— Vai contar para a Zara? Que a Genevieve te beijou?
— Disse a ela que daria a oportunidade de deixá-la contar. São amigas.
— Uma caralho. — Thomas me olhou com aquela paciência específica dele, que era na verdade zero paciência embrulhada em voz calma. — Você vai explicar pra sua mulher o que aconteceu se não quiser ver ela terminar com você em dois tempos quando descobrir. Ela já chegou?
Quando cheguei em casa, fui direto ao nosso quarto.
Vazio. A cama estava do mesmo jeito que tinha ficado pela manhã.
Ao escritório do Augusto, que a Zara tinha o hábito de frequentar quando precisava de silêncio ou de se sentir perto dele de alguma forma.
Vazio. A vitrola estava desligada.
Ao jardim, percorrendo os caminhos entre as árvores com aquela esperança idiota de que ela pudesse estar sentada em algum banco, precisando de ar.
Vazio.
Percorri a ala inteira antes de aceitar que procurar pela mansão sozinho ia levar tempo que eu não queria perder, e fui até a Dona Carmem, que estava na cozinha organizando o jantar que ninguém tinha pedido, mas ela preparava de qualquer forma.
— Dona Carmem, a Zara está em casa?
— A senhora Zara não voltou para casa ainda, doutor Arthur.
Fiquei parado por um segundo.
Se a Zara não estava em casa, não tinha ido ao hospital e o telefone estava desligado...
Onde raios estava minha esposa?

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