~ ARTHUR ~
Zara estava grávida.
Eu ia ser pai.
Fiquei parado com aquela informação dentro da cabeça, tentando encaixá-la em algum lugar que fizesse sentido, e não fazendo muito progresso. Por que ela estava escondendo isso de mim? Se bem que... fazia sentido. Não fazia? O que Genevieve tinha dito fazia sentido, por mais que eu não quisesse que fizesse. Eu não sei. O que eu sei é o que não fazia sentido.
O que não fazia sentido era o beijo.
Afastei Genevieve com firmeza suficiente para ser claro, mas sem brutalidade. Ela recuou no sofá imediatamente, os olhos arregalados, as mãos indo para a boca num gesto que parecia genuinamente surpreso consigo mesma — ou que parecia muito bem executado para ser surpresa de verdade. Não conseguia decidir qual das duas opções era mais perturbadora.
— Desculpa! Desculpa, eu não quis... desculpa!
— Você perdeu a cabeça? — perguntei, ainda processando o que tinha acabado de acontecer em cima de tudo que já estava processando.
— Não foi um beijo romântico! — Ela tentou se corrigir rapidamente, as palavras saindo atropeladas. — Foi de consolo. Eu só queria te fazer sentir melhor. Você não vai contar pra Zara, vai?
Ia? Devia.
Mas ao mesmo tempo Zara estava me escondendo que estava grávida. O que mais ela estava escondendo? O que mais nós dois estávamos escondendo um do outro? Porque esse tinha sido um casamento com muitas camadas desde o começo, e eu sabia disso melhor do que qualquer um.
Tentei organizar o que estava na minha cabeça.
Eu acreditava que ela era neta do Augusto. Mesmo com as dúvidas que o exame tinha levantado. Mesmo com os momentos em que a desconfiança tinha entrado sem pedir licença. Ela não tinha como fingir a conexão que teve com meu padrinho. Aquele afeto não era mentira. Não tinha como fingir o quanto ficou destruída com a morte dele. Aqueles quinze dias de cama, o olhar vazio, o corpo que cedeu antes da mente. Não se faz isso por herança. Não se faz isso por estratégia.
E eu... eu não conseguia fingir o que sentia por ela. Isso eu sabia com uma clareza que me incomodava mais do que qualquer dúvida sobre o exame ou sobre a gravidez, porque era a única coisa sobre a qual eu não tinha controle nenhum.
Então continuar mentindo ou escondendo coisas um do outro não era mais uma opção. Não podia ser.
— Vou te dar a mesma opção que você me deu com relação ao teste de parentesco — falei, olhando para ela. — Você conta ou eu conto. Mas não vou esconder isso da Zara.
— Se importa tanto assim com os sentimentos dela? — A voz de Genevieve mudou de tom, perdendo o arrependimento de segundos atrás e encontrando algo mais afiado. — Mesmo ela tendo armado tudo o que armou para entrar na sua família e sair de lá com a herança do Augusto? Ou com a sua.
— Não é possível que você acredite no que está dizendo.
— Não é possível que você não acredite!
— Achei que você fosse amiga dela.
— Gen, não é isso...
— Não quero conversar mais agora. — Ela me cortou, já quase na saída. — Talvez eu realmente esteja errada sobre a Zara. Eu espero estar. Mas se não estiver, não conte comigo para ficar recolhendo os seus cacos depois. Cansei de ser uma boa amiga e não ser reconhecida por isso.
Saiu.
O pedido chegou pouco depois. A garçonete pousou o prato com discrição, e eu fiquei sentado olhando para a comida sem nenhuma vontade real de tocá-la.
Que bagunça era essa que minha vida tinha se tornado?
Tentei organizar. Tentei fazer as contas, montar as peças, chegar a alguma conclusão que me desse chão embaixo dos pés. O exame. A gravidez. O beijo que Genevieve tinha dado e que ela tinha chamado de consolo como se isso fosse uma categoria reconhecida de beijo. A Zara escondendo que estava grávida. Eu escondendo que o exame tinha dado negativo. A Leonora querendo o testamento. O processo. Tudo ao mesmo tempo, em camadas que eu não conseguia separar o suficiente para analisar uma por vez.
Mas não importava qual ângulo eu tentasse, por qual fio puxasse primeiro, meus pensamentos continuavam sendo interrompidos e voltando para o mesmo lugar.
Para a única coisa que parecia importar de verdade naquele momento, no meio de todo o resto.
Eu ia ser pai.

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