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INVENTEI UM NAMORADO E ELE ERA MEU NOIVO BILIONÁRIO romance Capítulo 102

O olhar do doutor Marcelo e o meu se cruzaram por uma fração de segundo — tempo suficiente para eu balançar a cabeça negativamente, apenas uma fração para cada lado, tão sutil que Arthur não poderia ter notado nada mesmo se estivesse olhando na minha direção.

— O doutor sabe que não posso fazer isso — o médico respondeu, com aquela calma profissional de quem não pretende se desculpar por isso.

Arthur não perdeu tempo.

— Sou o marido da paciente.

— Então deveria conversar diretamente com a sua esposa.

Precisei morder a parte interna da bochecha para não rir. Porque nunca, em nenhum momento desde que eu conhecia Arthur Sartori, eu tinha imaginado vê-lo sendo desafiado dentro do próprio hospital. Era o lugar onde ele tinha mais autoridade do que em qualquer outro. Era onde o sobrenome na entrada era o sobrenome dele. E mesmo assim, ali estava ele, sendo gentilmente barrado por um médico que estava apenas cumprindo o que a lei mandava.

Fazia sentido, claro. Arthur podia mandar em tudo ali dentro, mas não podia mandar nas leis. Sigilo médico era sigilo médico. E Arthur podia ficar o quão furioso quisesse — e estava claramente ficando, pela forma como a mandíbula travou por um segundo — mas sabia que o doutor Marcelo estava com a razão.

— Mas, como eu disse, Zara está muito bem e está apenas sendo monitorada. — O médico fez uma pausa com o timing perfeito. — Vou permitir que o doutor fique de acompanhante.

Dessa vez não consegui segurar.

A risada saiu antes que eu pudesse fazer qualquer coisa a respeito.

Ele ia permitir. Ele ia permitir alguma coisa a Arthur Sartori. Aquele homem, naquele hospital, precisando de permissão de alguém. Era de longe a coisa mais engraçada que eu tinha ouvido em semanas — e considerando as últimas semanas, a barra não estava alta, mas ainda assim.

O médico saiu com a mesma compostura com que tinha entrado.

— Você acha isso engraçado, é? — Arthur disse.

— Acho muito — confirmei, sem nenhum remorso.

Ele voltou a se sentar na beira da cama e segurou minha mão, e havia naquele gesto uma simplicidade que me desarmou mais do que qualquer coisa elaborada teria conseguido.

— É bom te ver rindo de novo.

Senti o peito apertar de um jeito que não tinha nada de ruim.

— A culpa é toda sua — disse, com uma leveza que eu não precisei fingir. — Mas para de tentar controlar tudo. Não aconteceu nada demais. Estou no melhor hospital onde poderia estar, fiz os exames necessários e estou bem. É tudo o que você precisa saber. Pode voltar ao seu plantão agora.

— Estão me cobrindo. — Ele se ajeitou na cama, e antes que eu entendesse o que estava acontecendo, tinha se deitado ao meu lado e me puxado contra o peito com aquela naturalidade de quem não está pedindo permissão, mas também não está forçando nada. Só existindo perto de mim como se aquele fosse o lugar mais óbvio para estar. — Como estava sendo o seu dia antes disso?

— Arthur, isso ainda é análise clínica? Você está tentando descobrir alguma coisa através de...

— É só interesse genuíno — ele cortou.

Eu tinha pensado isso. Tinha deixado aquela ideia entrar e ficar.

E agora, com ele deitado ao meu lado, a mão nos meus cabelos, tendo visto o desespero com que ele tinha entrado por aquela porta, eu me perguntava como tinha conseguido pensar isso mesmo por um segundo. Arthur não era esse tipo de pessoa.

O problema era que eu precisava que ele chegasse à mesma conclusão sobre mim. Que eu não era golpista. E com um teste de parentesco negativo trancado em um cofre e uma gravidez não planejada de um Sartori, isso parecia, naquele momento, muito complicado de sustentar sem que parecesse exatamente o contrário.

— Descobriu o quê? — ele perguntou, quando minha frase incompleta ficou pairando no ar.

— Que não devo beber, não é? Você mesmo disse.

Ele ficou me olhando por um segundo. Aceitou.

— Bom, eles produzem suco de uva também. E uma tacinha não vai ser prejudicial. — Voltou a se reclinar. — Você está certa. Deveríamos ir. Deveríamos sair da bolha por uns dias. Deixar tudo isso para trás.

Deixar para trás.

Eu queria. Com toda a sinceridade que me restava naquele dia, eu queria.

Só que os problemas não ficavam para trás. Eles vinham junto. Sempre vinham.

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