O corpo de Noémia ficou tenso e um indício de pânico atravessou seu olhar.
Em sua coluna havia uma pinta preta em alto-relevo, e era a parte mais suave de seu corpo inteiro.
Sensível.
Vulnerável.
Todas as vezes em que faziam amor com intensidade de morrer, ele tinha o costume de virá-la de bruços sobre o travesseiro para depois acariciá-la e pressioná-la delicadamente.
Ele só parava quando ela se transformava em uma poça de águas de primavera, amolecida e entregue, permitindo que ele fizesse o que bem entendesse.
Aquela era uma parte do corpo dela; ele achava que ela a manteria para sempre?
Infelizmente para ele, ela havia decidido dar adeus ao passado, por isso, reestruturou tudo de si mesma de que ele costumava gostar.
O motivo de entrar em pânico foi que havia um lugar inalterado.
Era o ferimento no meio de seu peito.
Uma cicatriz de quatro centímetros deixada quando ele a apunhalara com a faca de frutas anos atrás.
Pelas habilidades médicas dela, teria sido fácil remover aquela marca.
Contudo, ela não o fizera.
Dez anos atrás, fora justamente por vaidade, e por temer que ele se culpasse, que ela apagou os ferimentos.
Aquilo os levara a uma série de mal-entendidos trágicos, e ela havia sido torturada por ele e coberta de feridas.
Há cinco anos, ele tinha reproduzido aquela mesma cicatriz com suas próprias mãos. Ela a conservou cuidadosamente, lembrando a si mesma o tempo inteiro o quanto havia sido estúpida naquela época.
Isso queria dizer que, se Tomás apenas abrisse sua blusa, ele veria a cicatriz em seu peito.
Durante todos aqueles anos, ela não contara que fosse voltar para a Cidade do Mar, muito menos que fosse esbarrar nele, o que quase a fizera esquecer daquilo.
Agora que ele começara a se aproximar de repente e agarrá-la, as memórias saltaram abruptamente à sua mente.
Droga! Se ele visse a cicatriz, a maquiagem para alterar sua aparência e o disfarce da voz iriam todos por água abaixo.
Ele já desconfiava dela; se tivesse a comprovação daquilo, ela não estaria de mãos atadas?
Observando a mão do homem se aproximar descendo por sua nuca, ela bateu furiosamente de baixo para cima contra o belo rosto dele.
Como a atenção de Tomás estava voltada para ela inteiramente, com apenas um movimento ela se denunciou, e ele reagiu em um segundo.
Bloqueou a mão esbelta liberando a própria mão e segurou seu pulso, perguntando assustadoramente sombrio: — O que foi? Sentindo-se culpada?
Noémia apertou os lábios.
Na Cidade do Mar, ela não tinha escolha contra o homem. Por isso, nunca deveria deixar que ele criasse desconfiança.
Sua imensa euforia evaporou deixando uma tristeza desolada, drenando toda a exaustão sobre o fôlego interior.
Descansou os ombros debruçados no espaço da parede vertical, suavemente trancafiando seus olhos com as pestanas.
Noémia, você sabe que eu sinto sua falta a ponto de enlouquecer?
Já cumpri minha penitência por cinco anos, não é o suficiente?
Dias assim são difíceis demais de suportar.
Eu... Eu só quero morrer!
Na entrada.
Noémia fez um breve resumo da condição do procedimento cirúrgico feito sobre Dolce.
— No mais tardar, ainda há três cirurgias para frente, no aguardo da melhor chance providenciarei suas instaurações. Cuide bem dela.
Camila gesticulou intensamente um sinal afirmativo, prestando homenagens diversas vezes em uma só retórica para externar sua grata salvação.
Noémia estava encurralada numa extrema e apressada vontade de dispersar as vigilâncias mantidas pelo próprio Tomás, e recomendou instruções extras brevemente ao passo que prosseguia rumo a ir embora dali.
No entanto, logo após ultrapassar as portas do seu espaço operatório cirúrgico, se avistou com variados vigias imersos nas roupas de terno negro, impedindo a passagem.

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