Ezequiel sabia o que Betina diria a seguir, e seu olhar escureceu. Adriana demonstrou curiosidade, aguardando o resto da história.
O quarto era iluminado apenas por uma arandela amarelada, cujas sombras desenhavam sulcos profundos no rosto de Betina.
Ela segurava uma xícara de chá quente, com os nós dos dedos brancos pela força. Sua voz soava baixa e rouca, como se cada palavra fosse arrancada com dificuldade da poeira de suas memórias.
— Naquele ano, Zander era apenas um forasteiro insignificante, que mal conseguia se manter em sua posição.
Betina mantinha as pálpebras caídas, sem olhar para ninguém, encarando apenas o chá balançando na xícara:
— As velhas raposas mais influentes das câmaras de comércio haviam conspirado com os rivais em segredo. Eles armaram um esquema, esvaziaram o valor de um terreno e fizeram o investimento fracassar, arrastando muitos pequenos comerciantes para a ruína. Como Zander era o líder do projeto, foi cobrado pelos superiores.
Um sorriso frio e amargo surgiu no canto de seus lábios:
— Ele enviou convites pessoalmente, chamando aqueles homens para um banquete em uma mansão recém-construída. Disse que... queria oferecer um jantar para admitir a derrota e implorar por uma saída.
O ar parecia ter congelado com a narrativa dela.
— Naquela noite, a mansão estava toda iluminada, com música tocando. Estava muito animado.
Sua voz foi ficando cada vez mais baixa, carregando uma calma aterrorizante.
— A comida era excelente, o vinho era de primeira. Zander estava sentado no lugar de honra, sorrindo o tempo todo, fazendo brindes, sendo extremamente educado.
— Mas, depois de algumas rodadas de bebida, o primeiro deles, o Chefe Barros, disse que ia sair para tomar um ar e nunca mais voltou.
Ela ergueu as pálpebras, e um brilho afiado cruzou seus olhos turvos:
— Depois foi o Presidente Batista. Bebeu demais, foi ajudado a ir descansar... e também desapareceu.
— Os que sobraram começaram a perceber que algo estava errado e quiseram ir embora.
Ela soltou um suspiro leve, carregando o calor e a amargura do chá.
— Mas a porta já havia sido trancada pelo lado de fora. Foi então que Zander limpou a boca e se levantou, ainda sorrindo.
— Ele segurava a faca usada para fatiar o cordeiro assado. Era fina, afiada e brilhava de gordura.
As pontas dos dedos de Betina esfregavam a xícara de forma inconsciente:

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Flores Que Florescem Na Lama
Gostaria de ler mais não consigo porque tenho que pagar...