Meu coração acelerou. Instintivamente, dei um passo para trás, colocando-me entre ele e os berços, como se meu corpo fosse a única barreira possível entre a inocência dos meus filhos e a escuridão que vinha dele.
— Gael… você está bêbado. Não é a hora. — minha voz vacilou, mas tentei soar firme.
Ele não parou. Cada passo que dava parecia pesar sobre mim, como se o ar se tornasse denso, sufocante. Quando estiquei a mão para afastá-lo, já era tarde: suas mãos me agarraram pela cintura com força. O gesto não tinha nada de carinho. Era domínio. Uma marca de posse.
— Me solta — pedi, a voz embargada, tentando me desvencilhar.
— Não. — Sua voz era baixa, quase um rosnado. — Você é minha esposa.
Aquela frase me atravessou como um estilhaço. O “minha esposa” não soava como amor, mas como uma sentença.
— Eu não quero fazer isso dessa forma, Gael. — Tentei manter o controle, engolindo o pânico que ameaçava me sufocar. — Não quando você está assim.
Do berço, Breno começou a resmungar, seu chorinho fino cortando o silêncio pesado. Era como se até ele percebesse a tensão.
— Gael, por favor. Me solta. — Desta vez minha voz saiu mais firme, carregada de súplica e de medo.
Mas a pressão dos dedos dele só aumentou, cravando-se na minha pele. Minha respiração ficou curta, o coração disparado. O medo queimava no meu peito, até que algo dentro de mim mudou. Era como se o amor pelos meus filhos tivesse acendido uma chama onde antes só havia fraqueza.
De repente, não havia espaço para hesitar: ergui o joelho e o acertei na virilha com toda a força que encontrei dentro de mim.
Ele arqueou o corpo e soltou meu corpo, um grunhido de dor escapando de seus lábios. Surpreso e furioso, recuou um passo. Seus olhos, cheios de raiva, se fixaram em mim. Eu não esperei. Corri até a porta, abri num só gesto e me virei.
— Sai daqui, Gael. Agora.
Ele ficou parado, ofegante, entre a dor e a incredulidade. A tensão se espalhava pela sala como uma ameaça silenciosa.
— Você… vai se arrepender de me tratar assim. — O tom dele era um veneno lento.
Engoli em seco, mas não recuei. — Talvez. Mas não hoje. Sai.
Por um instante, temi que ele avançasse de novo. Mas, em vez disso, vi seus lábios se curvarem num sorriso torto. Um sorriso cruel. Ele balançou a cabeça devagar e se afastou, cambaleando pelo corredor. Assim que cruzou a soleira, bati a porta com força e girei a chave. O clique da fechadura soou como meu primeiro suspiro de alívio.
Corri até o berço. Breno chorava mais alto agora, assustado. Peguei-o no colo, abraçando-o contra o peito, sentindo seu corpinho quente e trêmulo. Embalei-o com movimentos lentos, repetindo palavras de consolo que talvez fossem mais para mim do que para ele.

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