O poder de Bernardo Pereira estava justamente nisso. Cada palavra sua era calculada para deixá-la sem qualquer argumento.
E, no entanto, em cada uma dessas palavras, ele estava defendendo Adelina Botelho.
— Eu sei que você acha que foi a Adelina quem fez isso. — Inesperadamente, Bernardo tocou no assunto por conta própria.
Por um instante, a mão de Cora estancou no ar, ainda segurando a colher.
— Mas não poderia ser a Adelina. Porque, depois de todos esses anos ao meu lado, ela sabe muito bem o que eu quero.
— Se ela forçasse um acidente com Nicolas Fernandes, seria porque não queria que você vivesse. E se algo acontecesse com você, ou com a criança no seu ventre, o que eu usaria para conseguir as ações?
— Por mais que a Adelina não se dê bem com você, ela não faria algo tão impensado.
As palavras de Bernardo soaram tão convictas que sufocaram qualquer tentativa de resposta de Cora.
Porque cada sílaba dele fazia todo o sentido.
De fato, não deixava margem para refutação.
Contudo, Cora também sabia perfeitamente que aquela situação não era, de forma alguma, tão simples quanto parecia na superfície.
A questão era que ninguém acreditaria em nenhuma de suas suspeitas.
Afinal, quem tinha perdido o bebê era a Adelina.
E ainda por cima, uma perda em estágio avançado da gestação.
Somando isso à relação conturbada entre ela e Adelina, todos presumiriam que Cora havia premeditado aquilo há muito tempo.
Sob tais circunstâncias, Cora estava de mãos atadas; ela estava sufocada pela verdade, mas sabia que ninguém lhe daria ouvidos. Foi uma onda de impotência que a consumiu de imediato.
Em contrapartida, foi o silêncio dela que fez Bernardo abaixar a guarda e adotar uma postura mais branda.
A voz dele também se tornou mais suave.
— Cora, se você se comportar e cooperar, eu não vou dificultar as coisas para você, entendeu?
Bernardo parecia estar tentando persuadi-la como se acalma uma criança.
O olhar de Cora cravou-se fixamente em Bernardo.
Ainda sem demonstrar grandes reações emocionais.
Ela deixou as palavras escaparem, carregadas de uma leve ironia:
— Se eu for boazinha, você vai me deixar ver o Nicolas?
Ao fazer aquela pergunta, Cora demonstrou uma franqueza cortante.
Aquele com o rosto sombrio passou a ser Bernardo.
Ele soltou um riso de escárnio:
— Cora, não teste a minha paciência.
Cora não respondeu, apenas abaixou a cabeça e continuou a tomar seu café em silêncio.
Bernardo sentiu-se contrariado, mas, diante daquela atitude, acabou optando pelo silêncio.
O clima do café da manhã não foi exatamente ruim, mas definitivamente não poderia ser chamado de bom.

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