Além disso, todos também conheciam a personalidade de Adelina.
Medrosa e completamente intolerante à dor.
Como ela chegaria ao ponto de cometer a insanidade de dar uma facada na própria barriga?
Afinal, qualquer erro com uma facada daquelas poderia resultar na morte não só do bebê, mas dela também.
E o mais importante de tudo era que essa criança era o único laço que ainda restava entre Adelina e Horácio.
Se o bebê não existisse mais, até mesmo o vínculo matrimonial entre os dois desapareceria por completo.
A situação de Adelina ficaria então ainda mais vulnerável e perigosa do que já estava.
Portanto, era totalmente irracional pensar que Adelina se esfaquearia de propósito.
Quando todas essas impossibilidades se encontravam na mesma narrativa, as coisas se tornavam cada vez mais absurdas.
Porém, Horácio jamais poderia dizer isso abertamente.
Ele era apenas um terceiro nessa história inteira.
E, devido às circunstâncias atuais, não soaria adequado defender nenhuma das partes envolvidas.
Por isso, Horácio optou por quebrar o silêncio de maneira neutra e apaziguadora:
— Podemos checar as câmeras de segurança mais tarde, assim teremos uma noção do que de fato ocorreu. Mais cedo eu notei uma câmera perto do local, embora o ângulo talvez não mostre a cena inteira.
Bernardo apenas soltou um "hum" indiferente, não se alongando no assunto.
Os dois retomaram o silêncio pesado.
Isso até a porta do centro cirúrgico se abrir.
Adelina foi transportada pelos enfermeiros e levada direto para um quarto de recuperação especial.
Bernardo caminhou depressa, indo ao encontro do médico para se atualizar.
— Como está o estado dela? — Bernardo perguntou com frieza e objetividade.
O médico, por sua vez, foi muito direto:
— A maior parte do trauma foi sofrida pela criança, que recebeu o impacto do golpe diretamente. A Sra. Botelho, sendo o corpo materno, não corre riscos vitais maiores, sofreu os danos físicos do corte, mas os órgãos estão intactos. Contanto que tenha um repouso absoluto, logo o corpo estará curado.
Ao escutar essas palavras, Bernardo finalmente soltou um leve suspiro de alívio.
Mas a frase seguinte do médico fez com que a testa de Bernardo se franzisse ainda mais.
— No entanto, dado o quadro clínico atual da Sra. Botelho, as chances de ela voltar a engravidar no futuro são praticamente inexistentes. — O médico completou a explicação em voz baixa.
Bernardo não disse nada, limitou-se apenas a escutar as palavras do doutor.
Mas essa informação repentina, curiosamente, pareceu trazer uma sensação de liberação para Bernardo.
Não se sabia se pela estabilização física de Adelina ou por algum outro motivo obscuro.



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