Mesmo dizendo aquelas palavras, Horácio não soou nem um pouco convencido.
A atitude que o amigo demonstrava em relação a Cora havia ultrapassado completamente as expectativas dele.
Diante de tal cenário, sua única opção era tentar consolar a ex-namorada.
Ela, por sua vez, havia perdido completamente o apetite.
Desde que havia saído com a esposa, Bernardo não retornara ao camarote.
— Coma mais alguma coisa. Mais tarde eu te levo para encontrá-lo, assim vocês podem conversar a sós — Horácio sugeriu diretamente.
Adelina sacudiu a cabeça:
— Deixa para lá. Estou sem fome, e de qualquer forma não gosto dessa comida. Deve ser do agrado de Cora.
O silêncio dele se prolongou, mas ele não tentou forçá-la.
Pouco tempo depois, eles avistaram o casal na área externa do clube.
A visão destroçou ainda mais o ânimo dela.
Através da imensa parede de vidro...
Podia ver com absoluta clareza a maneira como Bernardo paparicava a esposa.
Era um cuidado minucioso e atento aos menores detalhes.
Havia uma sinceridade naqueles gestos que descartava a hipótese de ser apenas um teatro.
Aquela constatação fez a tensão no corpo dela aumentar.
Quando Cora olhava para o marido, seus olhos transbordavam ternura, e as bochechas estavam coradas de vivacidade.
Estava óbvio que ela vinha sendo tratada como uma rainha.
— Quer descer até lá? — Horácio perguntou. — Se preferir, eu posso te levar para casa. Ele ainda deve estar de cabeça quente, você pode procurar um momento melhor para falar com ele.
Ele passou a decisão para as mãos dela.
Embora, em sua própria opinião, forçar um encontro naquele momento estivesse longe de ser uma ideia sensata.
Contudo, os nervos dela já haviam chegado ao limite.
Um medo irracional de perder tudo a consumia.
A última fuga a fizera perder a confiança inabalável que antes possuía.
O pânico e o desespero tornavam-se cada vez mais evidentes em seu rosto.
Desde o dia em que partira, ele não tentara contato, muito menos fora atrás dela em outro país.
Era impossível não sentir medo, e foi justamente esse pavor que a motivara a voltar correndo.
— Não. Vamos descer — ela finalmente decidiu, num fio de voz.

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