Num instante, Cora sentiu o gosto amargo do sangue nos lábios, misturado ao cheiro sufocante de álcool e tabaco.
O estômago dela revirava violentamente.
Seu corpo inteiro parecia feito de gelatina, completamente desprovido de força.
Mesmo assim, ela lutava e resistia com toda a energia que lhe restava.
Sua resistência, entretanto, não foi recompensada com compaixão, mas sim com movimentos ainda mais agressivos.
O som de tecido sendo rasgado ecoou pelo quarto principal.
A pele dela arrepiou-se quase no mesmo instante em que entrou em contato com o ar frio.
Não por causa da temperatura, mas de puro pavor.
Bernardo havia perdido totalmente o controle.
No entanto, seus olhos transmitiam uma frieza inabalável, como se ele estivesse perfeitamente ciente de cada uma de suas ações.
— Bernardo... — Cora empurrava o corpo dele num esforço frenético.
Mas foi inútil.
A diferença física entre um homem e uma mulher era intransponível.
A loucura causada pela bebida o tornava implacável.
Ele não lhe deu sequer um segundo para respirar, saqueando sua dignidade à força.
Pressionando a mão contra a parede, Cora não conseguiu conter um grito agudo.
O medo, o pânico e a dor se enroscavam em torno dela, sufocando-a impiedosamente.
Cora foi tomada por uma desolação avassaladora.
— Cora, mesmo que você entre em trabalho de parto prematuro agora, essa criança tem força suficiente para aguentar até eu colocar as mãos nas ações, entendeu?
Bernardo proferiu aquelas palavras com uma clareza cortante.
Os olhos de Cora transbordavam horror. Ela sabia que ele não estava brincando.
A crueldade daquele homem, ao longo dos sete anos de casamento, já estava gravada a fogo em sua mente.
Mas aquele bebê compartilhava de sua própria carne e sangue.
Cora jamais seria capaz de ignorar algo tão visceral.
E quanto mais ela tentava proteger o ventre, mais violento Bernardo se tornava.
A atmosfera no quarto era carregada de sofrimento e humilhação, sem nenhum vestígio de prazer.
Logo, os primeiros hematomas começaram a se formar no corpo de Cora, revelando a fúria dos golpes.
Ela resistia o máximo que podia, sem saber até quando aguentaria.
Exatamente naquele instante, batidas desesperadas soaram na porta do quarto.
— Cora! Cora, o que aconteceu?! Abre a porta, por favor, não me assusta! — A voz angustiada de Nicolas atravessou a madeira.
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