Cora apenas deu a ele um olhar desinteressado e ficou em silêncio.
— O médico disse que, por conta da gravidez, você não deve se exaltar. — Bernardo quebrou o silêncio num tom ameno.
Cora não respondeu; apenas fechou os olhos, fingindo dormir.
Bernardo não se importou. Virou-se, sentou-se no sofá ali perto e abriu o laptop para adiantar coisas do trabalho.
A atmosfera no quarto era estranha, como se uma falsa tranquilidade asfixiasse completamente todas as emoções que fervilhavam ali.
Cora não conseguia pregar os olhos.
Bastava o ambiente ficar silencioso para que sua mente fosse inundada por uma enxurrada de imagens.
O rosto de Bernardo, o de Nicolas, o de Adelina... todos se intercalavam num turbilhão.
Cada uma daquelas pessoas a mantinha presa, sufocada.
Cora não podia negar que as constantes mudanças de atitude de Bernardo a deixavam desorientada e emocionalmente instável.
Mas sabia que não podia se deixar abalar por ele.
Eles já estavam num beco sem saída.
Ela entendia perfeitamente as intenções de Bernardo: ele queria controlá-la.
O peso dessas memórias tornava a respiração de Cora ofegante.
Suas mãos agarravam o lençol com tanta força que a tensão era palpável.
Mesmo escondida sob as cobertas, longe da visão dele, Bernardo parecia sentir sua agonia de alguma forma inexplicável.
Ele desviou os olhos do computador para encará-la, levantou-se e aproximou-se da cama.
— Está se sentindo mal? — Bernardo franziu a testa e já ia apertar o botão de chamada de emergência.
Cora o encarou fixamente; por trás daquele tom supostamente preocupado, ela só conseguia enxergar apatia.
A preocupação dele era inteiramente voltada para a criança em seu ventre, e não para ela.
Ela estendeu a mão para detê-lo e, apoiando-se nos braços, sentou-se na cama.
Ao observá-la, Bernardo apertou ainda mais o cenho.
Num gesto instintivo, ajustou a altura da cama hospitalar para que ela ficasse mais confortável.
Quando ele se curvou, seus rostos ficaram a centímetros de distância.
Cora observou os dedos longos e bem desenhados de Bernardo pressionarem os botões de ajuste, enquanto a outra mão apoiava suavemente sua lombar.


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