acidente fatal ou tragédia inesperada faria todo o sentido do mundo naquele cenário caótico.
Hugo franziu as sobrancelhas, preocupado. — Senhor, se fizer isso de verdade, a senhora Valentina...
Cícero exibia uma expressão vazia. Um sorriso melancólico de puro escárnio brincou nos cantos de seus lábios. — Enquanto aquele desgraçado respirar, Valentina nunca vai ser minha de novo.
A noite estava gélida e tomada por um silêncio fúnebre.
Cícero, mais uma vez, dirigiu-se ao quarto de Tadeu.
O menino dormia um sono pesado, enrolado nas cobertas.
Ele puxou uma cadeira e sentou-se, imóvel. Não fez ruído algum. Não proferiu palavra. Apenas velou o sono da criança.
Após um longo tempo de imobilidade absoluta, os olhos de Cícero pousaram na última prateleira da estante, abarrotada de pacotinhos de biscoitos e pães doces. Esticou a mão no esconderijo de sempre e retirou o DVD surrado. Foi até a sala de projeção e reproduziu o conteúdo.
E assistiu mais uma vez.
Quando a luz prateada da alvorada já lambia as paredes, ouviu duas batidas na porta. Cícero alisou o paletó e girou a cabeça com lentidão e serenidade letal.
-
Na manhã seguinte, o Grupo Pacheco disparou um comunicado chocante aos veículos de mídia: Cícero Bessa estava acometido por uma doença grave, não participaria das reuniões de conselho e seria afastado imediatamente de todos os trâmites corporativos.
Usando a doença como justificativa perfeita para um isolamento forçado, Cícero foi trancafiado na Mansão Pacheco.
No momento em que foi empurrado portas adentro, cruzou o corredor principal exatamente quando a velha Sra. Pacheco estava de saída.
A Matriarca soltou um riso gélido de escárnio, passando reto sem sequer sujar os olhos ao encará-lo.
Mais tarde, naquele mesmo dia, Amélia passara horas examinando a cópia dos documentos da pasta fina. Sem suportar a dúvida, telefonou para a rival:
— Quando eu mandei você fuçar lá, achei que ia demorar. Como, em nome de Deus, você achou algo tão importante de forma tão fácil? Eu juro que preciso entender que feitiço você usou.
A carta de denúncia. A evidência criminosa que era a dinamite capaz de mandar todos os Pacheco para a prisão. Como Cícero havia sido tão estúpido a ponto de deixá-la encontrar isso?
Os meros funcionários do conselho não faziam a menor ideia, mas Cícero e Amélia sabiam que o poder daquele pedaço de papel significava a ruína absoluta.
O que, diabos, ele estava fazendo ao facilitar tanto?
Do outro lado da linha, Valentina respondeu com uma indiferença ensurdecedora:
— Não me lembro de sermos grandes amigas para eu ter que jogar conversa fora com você.
— O que prometi, entreguei. Cumpra a sua parte do trato o mais rápido possível e suma.
Cícero ficou confinado, incomunicável, na Mansão Pacheco por sete dias seguidos.
Após uma semana, Amélia decidiu fazer uma visita ao prisioneiro de luxo, mas ele permaneceu trancado na Capela, ignorando ordens e batidas na porta.
Ignácio, na cadeira de presidente da empresa, tentava consertar as finanças esburacadas em meio a um ataque de pânico corporativo.
Mas Amélia não dava a mínima para a empresa.
Não se importava com o nome Pacheco. Não ligava para Ignácio, tampouco para Vitória.
Hugo, plantado diante da porta da Capela de madeira na mansão, acabava de ver Cícero encerrar as orações. Sabendo que o menino estava em prantos, não suportou e bateu na porta de mansinho.
— Sr. Cícero, desculpe interromper. O pequeno Tadeuzinho não para de chorar; ele quer desesperadamente ver o senhor pela chamada de vídeo.
Muito tempo se passou no interior da sala, até que o som seco de passos anunciou a abertura da porta.
Cícero apareceu usando apenas uma camisa amarrotada. A sombra e a apatia letal em seus olhos estavam dez vezes piores do que no dia em que fora preso ali. Hugo sentiu o sangue gelar quando baixou o olhar e avistou o braço de seu chefe encharcado de sangue fresco e escuro. Compreendeu a gravidade da situação na hora.
Cícero sequer franziu a testa. Apenas ergueu a mão esquerda e deslizou o dedo pela tela do celular, que tremia.
Vídeo aceito.
Na tela, os olhos do pequeno Tadeu, vermelhos e inchados, indicavam que estava soluçando.
A pele do maxilar de Cícero se contraiu de leve: — Por que está chorando?
— Eu achei que você ia morrer... — Tadeu fungou alto e as lágrimas, antes contidas, escorreram em cataratas, deixando seu rostinho banhado de desespero.
Hugo engoliu em seco ao lado do patrão. Sentia uma pena genuína do menino amoroso e leal.
O silêncio reinou.
— Por que você acharia que eu ia morrer?
Tadeu esfregou o rostinho com as mangas do casaco de frio e, incapaz de guardar aquele pesadelo apenas para si, fez sua confissão de culpa, engasgado:
— ...Porque eu achei que aqueles remédios faziam mal, então eu joguei tudo fora e troquei os vidrinhos.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Ele Disse Que Se Arrependeu