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Ele Disse Que Se Arrependeu romance Capítulo 266

Ou, melhor dizendo, não parecia a *sua* casa.

Cícero só chegou à Mansão Pacheco depois que o jantar já havia terminado.

Tadeu foi mandado de volta para a vila, e Cícero caminhou solitário até a Capela da propriedade para acender velas e fazer suas preces.

Encostada na janela, havia a silhueta esguia de uma mulher, segurando uma taça de vinho.

Ela usava um vestido de tricô marrom, elegante e discreto. O cabelo, outrora cheio de ondas armadas, agora caía liso e escuro pelas costas. Ela o observou em silêncio.

— O papai voltou.

— De agora em diante, qualquer movimento seu será muito mais difícil.

Cícero nem sequer ergueu os olhos. Continuou com a vela na mão, curvando-se sutilmente em respeito ao pequeno altar enquanto a chama bruxuleava no ambiente escuro.

Amélia caminhou até ele e pousou a taça de vinho sem a menor cerimônia sobre o altar, bem ao lado das imagens sagradas.

— Passei todo esse tempo nos Estados Unidos me rastejando e tentando agradar o papai por um único motivo: garantir que eu teria um porto seguro caso você fosse destruído por ele. Você me acha uma traidora por isso? — Amélia escorou o quadril na borda do altar e, ao ver o silêncio de Cícero, deu uma risada seca.

— Aposto que você não acha. Afinal, foi você quem nos traiu primeiro.

— Sabe por que eu escolhi voltar logo hoje?

Cícero a ignorou. Endireitou o corpo e fixou a vela no candelabro de metal.

— Hoje é o aniversário de morte dos seus pais.

As pálpebras de Cícero sofreram um leve espasmo.

Amélia deu um passo na direção dele. Ela vestia uma roupa antiga que havia roubado do quarto de Valentina há muitos anos. Como a peça era um número menor, moldava-se ao corpo dela de forma vulgar e apertada.

Apoiando as mãos na madeira, ela ergueu o rosto, o hálito exalando álcool. — Quanto tempo faz que eles morreram? Vinte anos? Vinte e um? Ou seria vinte e dois...

Amélia aguardou alguns segundos. Os olhos dela, cortantes como cacos de vidro, pareciam querer desmembrar a alma de Cícero. Ela sorriu.

— A verdade é que você teve a chance perfeita no passado. Mas, no momento decisivo, você foi covarde. O seu coração amoleceu. E você perdeu a oportunidade.

— Por causa disso, nos últimos dez anos, você passou cada maldito dia tentando tapar o buraco que a sua própria hesitação criou.

De fato, no passado, a faca esteve na mão dele.

Ele estava a um passo de varrer o império do Grupo Pacheco do mapa.

Mas foi justo naquele momento que Valentina descobriu que estava grávida.

Ao ouvir acidentalmente que seu pai e Cícero estavam sendo investigados, ela entrou em desespero e caiu da escada da clínica médica, quase sofrendo um aborto espontâneo.

Naquela fração de segundo, a bússola moral de Cícero cedeu. Ele interceptou e destruiu a carta de denúncia que teria enterrado a família Pacheco na prisão. A carta não continha apenas provas de lavagem de dinheiro da empresa; ela carregava evidências diretas do assassinato dos pais dele.

Mas Cícero destruiu o documento. Quando Amélia, furiosa, exigiu explicações, ele respondeu, envolto num silêncio mortal:

*— Ela é inocente.*

*Inocente.*

E por causa da tal inocência de Valentina, os dois tiveram que rastejar na lama por mais uma década.

Dez anos. Dez anos em que Valentina conseguiu escapar ilesa de todo o lamaçal da família Pacheco. Dez anos até Cícero conseguir montar a armadilha de novo. E, nesses mesmos dez anos, Amélia Pacheco vivera o próprio inferno, amando quem a desprezava, odiando quem não podia destruir, levando uma vida desgraçada e patética.

— Ela foi me procurar nos Estados Unidos. Suponho que você já saiba disso.

— Meu querido irmão postiço sabe de tudo, não é? — Ela sorriu com uma maldade ácida. — Então me diga... você sabe o que ela foi me oferecer?

A proximidade física entre os dois era asfixiante. Os lábios de Amélia quase roçavam nos de Cícero. Ele não recuou, nem demonstrou incômodo. Apenas a observou com uma tranquilidade de aço.

— Nós fechamos um acordo.

— Assim que o Grupo Pacheco acabar, ela vai te jogar para mim, como lixo.

— Tudo o que ela quer em troca... é uma perna sua.

Amélia não conseguiu segurar a gargalhada. A risada ecoou distorcida na Capela. — Ela é brutal. Aquela mulher tem o diabo no corpo.

A revelação sequer alterou a frequência respiratória de Cícero. Com uma expressão morta, ele colocou a mão no ombro de Amélia e a empurrou para longe do altar com um movimento firme. Em seguida, espanou a cera que pingara na mesa de madeira sagrada.

A brisa passou pela janela, apagando a pequena chama, restando apenas um fiapo de fumaça cinzenta no ar.

No dia seguinte, Valentina foi até a casa dele novamente.

Como esperado, seria a última vez que ela pisaria na vila.

O objeto que ela tanto procurava... Cícero sabia onde estava.

Se ele sabia, ele o entregaria a ela.

Quando Valentina abriu a porta do escritório, viu Cícero sentado atrás da mesa de mogno. Ele vestia um casaco espesso. Um casaco marrom, antigo, que ao mesmo tempo lhe era tão familiar e tão distante.

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