Só quando terminou de falar é que o Sr. Adilson percebeu que Cícero não esboçara reação alguma. Ele continuava sentado, parecendo desprovido de qualquer presença; não dizia nada e não demonstrava nenhum gesto.
— Cícero? O que foi? — perguntou Adilson.
Cícero levantou a cabeça, e Adilson notou que seus olhos estavam marejados, avermelhados.
— Então eu a interpretei mal esse tempo todo... Cheguei a pensar que foi ela quem me prendeu, que foi ela quem forçou a barra. Eu nunca imaginei... que ela era a mulher que deveria se casar comigo desde o princípio...
O estado de colapso de Cícero naquele momento deixou Adilson um pouco desconcertado, embora em seu íntimo ele compreendesse.
Sempre conheceu a psicologia do neto. Cícero valorizava demais os sentimentos, a ponto de, às vezes, abandonar outras coisas por causa deles. Ele seria capaz de abrir mão até mesmo da posição de líder da família Machado, que todos almejavam, tudo em nome dos sentimentos.
Para alguém que ocupa uma posição de liderança, ter coração é bom; porém, ter coração em excesso também pode ser um fardo.
Para garantir que Cícero se consolidasse naquela posição e se tornasse um líder adequado, Adilson havia cortado suas asas e feito muitas coisas irreversíveis. Mas ele não se arrependia; uma pessoa sem crueldade não conseguia permanecer muito tempo naquele posto.
Quanto a outro assunto, Adilson pensou bem e decidiu não contar a Cícero.
Primeiro, porque não tinha a intenção de lhe contar; segundo, porque a própria Eduarda havia pedido para que ele guardasse segredo; e, além disso, o estado atual dos dois não era adequado para descobrirem essas coisas. Não faria mal esperar por um momento mais propício no futuro.
O Sr. Adilson observava atentamente a reação de Cícero.
Só aquele assunto já o havia abalado profundamente. Por isso, não poderia colocar ainda mais pressão nele naquele momento. Acalmar os ânimos não deixava de ser uma boa estratégia.



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