Ao sair do carro, Cícero perguntou:
— Como está o meu avô? A Eduarda e eu viemos vê-lo.
O velho mordomo recusou com polidez:
— É melhor que o Sr. Cícero não perturbe o patrão no momento. O médico recomendou que ele evite qualquer tipo de estresse ou preocupação. Por favor, priorize a saúde dele, senhor.
Diante da recusa do mordomo, Cícero sentiu que não deveria insistir, até porque a situação ainda não havia chegado a um ponto tão crítico que exigisse a intervenção direta do avô.
Cícero e Eduarda se sentaram na sala, e Cícero perguntou:
— Que dia é hoje?
O velho mordomo entendeu imediatamente o que Cícero queria dizer.
— O memorial da família já foi limpo. O Sr. Cícero pode ir direto para lá — informou o mordomo.
Um traço de melancolia cruzou o olhar de Cícero. Ele se virou para Eduarda e murmurou:
— Eduarda, vou ao memorial prestar minhas homenagens. Você gostaria de...
— Não precisa. Seria inadequado — cortou Eduarda de imediato, recusando sem rodeios.
O espaço reservado no memorial da Praia Dourada guardava as lembranças dos pais de Cícero, e era a eles que ele desejava homenagear.
Eduarda nunca havia participado dessas homenagens antes, então não via motivo para entrar naquele santuário familiar justamente agora.
Cícero a observou com um aperto no peito. No fundo, ansiava por levá-la até lá para apresentá-la espiritualmente aos pais e lhes dizer que tinha trazido a nora de volta para casa.
Mas Eduarda não queria. E Cícero sabia que não podia forçá-la.
— Então descanse um pouco aqui. Vou ali no memorial e já volto — disse Cícero.
Eduarda apenas piscou devagar e não acrescentou mais nada.
— O patrão mandou alguém resolver essa burocracia. Na época, a senhora e o Sr. Cícero estavam extremamente ocupados e acabaram deixando esse assunto de lado. O patrão se lembrou, mandou buscar a documentação para guardar e disse para entregá-la à senhora quando surgisse a oportunidade.
Eduarda continuou fitando o documento em suas mãos, ainda incapaz de se recordar dos detalhes do processo de separação.
Imaginou que aquilo fosse mais uma sequela do acidente de carro, que devia ter afetado algumas de suas memórias, mas nada fora do que ela já esperava.
— Certo. Agradeça ao vovô por mim — disse ela, fechando o documento. — Vou ficar com isto.
Cícero tinha acabado de sair do memorial quando presenciou a cena: Eduarda segurava a certidão de divórcio, exibindo um sorriso sutil e sereno.
Ela parecia ter alcançado uma espécie de alívio libertador.
Ao ver aquilo, Cícero sentiu uma profunda amargura tomar conta do peito.
A imagem daquele documento nas mãos dela pareceu ferir seus olhos, e ele cerrou os punhos lentamente.

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