Eduarda ficou em silêncio por dois segundos, abaixou a cabeça, pensou um pouco e respondeu:
— Hum... Eu me sinto muito bem com você. Você sempre me transmite uma paz que ninguém mais consegue me dar.
O olhar de Franklin escureceu por um instante, mas logo ele piscou e agiu como se não fosse nada.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Eduarda.
— Não, só quis perguntar — respondeu Franklin, levantando-se para recolher a louça. — Vai descansar. Dorme cedo.
Eduarda até quis ajudá-lo a recolher as tigelas, mas Franklin recusou e insistiu para que ela subisse para o quarto.
Sem insistir, Eduarda voltou para o quarto para descansar.
A mesa do jantar da madrugada foi fácil de arrumar. Em pouco tempo, Franklin já tinha terminado tudo. Quando saiu de trás da ilha da cozinha, olhou de novo para cima, na direção do quarto de Eduarda.
Ele tinha acabado de perguntar por que ela estava com ele, e a resposta dela não tinha nada de errado.
Mas Franklin ainda sentia um certo vazio.
Eduarda gostava de tê-lo por perto e também o tratava muito bem, mas Franklin sempre sentia, vagamente, que o afeto da Eduarda de agora era diferente daquele amor direto e intenso que ela demonstrava por Cícero no passado.
Cícero já tinha sido alvo daquele amor tão luminoso de Eduarda, mas não o valorizou. Só de pensar nisso, Franklin sentia que havia algo profundamente injusto nisso tudo.
Mas Franklin não podia dizer nada. Talvez Eduarda tivesse mudado por causa do trauma do acidente, e aquele amor obstinado tivesse se transformado num carinho suave, cotidiano. Talvez, agora, ela o amasse de uma forma diferente daquela com que havia amado Cícero.
Franklin soltou um longo suspiro.
Naquele dia ele estava pensando demais, e sabia muito bem por quê. A aparição de Cícero tinha bagunçado toda a sua paz.
Sem dúvida, Cícero era uma presença problemática demais.
— Sim, senhor. Pode deixar.
Cícero desligou o telefone, e a dor no peito voltou de forma aguda e imprevisível.
Havia um remédio na mesa ao lado dele, receitado especificamente pelo médico para as dores no peito. Cícero ficou olhando para o frasco, de cabeça baixa, por um longo tempo, mas no fim não o pegou.
Apenas se permitiu sentir aquela dor indizível, como se, de alguma forma, merecesse sofrer tudo aquilo.
Cícero não conseguiu evitar relembrar o passado. Naquela época, Eduarda também ligava muito para ele. Às vezes ele nem via as chamadas e, naturalmente, não atendia; mesmo quando via depois, nem sempre retornava. Outras vezes, mesmo vendo a ligação, se estivesse ocupado com qualquer outra coisa, deixava Eduarda de lado. Será que, naqueles momentos, o coração dela doía daquele jeito? Ou será que a dor acumulada ao longo de seis anos era, na verdade, muito maior do que a que ele sentia agora?
Essas emoções continuavam se acumulando, quase rompendo as defesas mentais de Cícero.
Angustiado, ele fechou os olhos e se recostou no sofá.
Foi então que o celular vibrou, com um som especialmente nítido no silêncio da noite. Cícero pegou o aparelho na mesma hora para ver quem estava ligando.

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