Ao ouvir aquilo, Eduarda ficou ainda mais confusa. O que, afinal, Cícero estava tentando fazer?
As palavras dele só tornavam tudo mais absurdo, e ela simplesmente preferiu ignorá-las.
Cícero parecia fora de si. Seus olhos estavam tomados por uma fúria estranha, e havia algo profundamente ameaçador em sua presença.
Eduarda se debateu com força e, justamente quando Cícero abriu a porta do carro para empurrá-la para dentro, conseguiu finalmente se soltar.
— Mas o que você acha que está fazendo? Quem disse que eu quero ir para casa com você? Você enlouqueceu? — Eduarda puxou o próprio pulso com força e viu a marca avermelhada deixada pelos dedos dele.
Ela lançou um olhar furioso para Cícero, convencida de que ele devia ter perdido completamente o juízo para aparecer daquele jeito do nada e agir assim.
Cícero notou o pulso dela e percebeu na mesma hora que tinha usado força demais e a machucado.
Seus olhos se encheram de dor, e ele falou quase num sussurro:
— Me desculpa. Eu me desesperei. Eduarda, por favor, não fica com raiva de mim.
Eduarda se surpreendeu por um instante com o tom dele, mas não tinha a menor vontade de prolongar aquele drama inútil. Tossiu de leve e cortou a situação:
— Chega. Esquece isso. Vai embora. Vamos fingir que não nos vimos.
Dar de cara com o ex-marido daquele jeito já era azar suficiente, pensou Eduarda.
Encontrá-lo até em outro país... ela realmente devia estar com pouca sorte.
No momento em que se virou para ir embora, Cícero deu a volta e tornou a parar diante dela.
Eduarda já não entendia o que ele queria, e sua paciência estava se esgotando.
— Sr. Machado, o que você quer de mim? Se tem alguma coisa para dizer, diga logo. Se não, por favor, me dá licença — disparou ela, encarando-o com irritação e consumindo o resto da própria paciência. Ela realmente não queria fazer escândalo nem chamar a polícia. Não por medo do falatório, mas simplesmente porque não queria lidar com mais confusão. Aquilo já era desagradável o suficiente e não valia o desgaste de uma discussão pública.
Cícero olhava para Eduarda e, por um longo momento, continuou incapaz de dizer uma única palavra. Tudo parecia preso em sua garganta. Como explicar? Por onde começar? Seu coração estava dilacerado.
Vendo que ele continuava em silêncio, Eduarda perdeu de vez a paciência.
— Se você não vai falar, então esquece. Eu estou indo embora.
Ela tentou passar por ele, mas Cícero a interceptou outra vez e, finalmente, conseguiu falar.
— Não vai — disse ele, cerrando os punhos, como se tirasse força do próprio desespero. — Não vai embora, Eduarda... não me abandona.
No fim, ele já não conseguia mais falar. Os soluços escaparam, altos, atrás dela, e Eduarda quase podia sentir lágrimas quentes caindo em seu ombro.
Mesmo assim, ela sentia uma completa apatia diante daquele desabafo dramático.
Tentou entender por que ele estava dizendo tudo aquilo, mas não conseguia encontrar nenhuma lógica.
Então respondeu com total neutralidade:
— Do que você está falando, Cícero? Por que eu te odiaria? E por que você estaria me procurando?
No íntimo, Eduarda tinha a sensação de que o longo afastamento — ou algum trauma — tinha mexido com a cabeça dele, e que ele agora estava falando absurdos sem nexo; pior ainda, despejando tudo isso justamente para ela.
Os braços dele se enrijeceram outra vez em torno dela e, com grande esforço, Cícero continuou:
— Eu sei que você não quer me perdoar. Fui eu quem errou, eu sei que te machuquei profundamente. Só agora eu consegui entender a dimensão da dor que você sentiu no passado, e hoje estou sentindo na pele cada gota desse sofrimento. Eu também consegui enxergar o que sinto de verdade. Não tenho direito de te pedir muita coisa, mas eu imploro... me dá uma chance. Por favor, não desaparece nunca mais da minha vida, está bem, Eduarda?
Cícero sabia o tamanho do estrago que tinha causado a ela.
Ele já tinha se colocado no lugar de Eduarda inúmeras vezes, pensando que, se também tivesse sido ferido durante tanto tempo pela pessoa que amava, seu coração também estaria coberto de cicatrizes.

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