— Uma vez que já estamos casados, o divórcio nunca seria algo tão simples de se obter. — Continuou ele.
— Mesmo que você não queira absolutamente nada e esteja disposta a abandonar até mesmo o seu próprio filho.
Pela primeira vez em toda a sua vida, Cícero deparou-se com a sua própria impotência, percebendo que era incapaz de sequer reter a pessoa que desejava.
Eduarda sentiu uma dor de cabeça tão intensa que parecia prestes a explodir o seu crânio.
— Qual é a sua verdadeira razão para recusar o divórcio, ou você está agindo dessa forma sem nenhum motivo aparente? — Questionou Eduarda. — Você já tem Weleska Castilho ao seu lado, então você realmente acha apropriado que as coisas continuem dessa maneira?
Cada uma das incisivas perguntas de Eduarda ajudava Cícero a organizar a confusão de pensamentos que tumultuavam a sua mente.
O que realmente se passava em seu coração começou a se revelar lentamente, como o sol rompendo as nuvens densas de uma tempestade.
Ele sentiu que, finalmente, era capaz de confrontar aquela voz obscura e profunda que ecoava em seu interior.
Desde o aniversário de casamento, quando Eduarda deixou de tratá-lo com a devoção de outrora, ele se pegava pensando nela constantemente, até mesmo nos detalhes mais insignificantes do cotidiano.
No princípio, ele não deu importância a esses pensamentos, ignorando as consequências que eles poderiam trazer.
No entanto, gradativamente, ele começou a perceber que havia algo fundamentalmente errado com a situação.
Até mesmo nos momentos em que estava ao lado de Weleska, a imagem de Eduarda invadia a sua mente de forma autoritária, como um programa de computador que surge abruptamente na tela, roubando-lhe toda a paz de espírito.
A proporção do espaço que Eduarda ocupava em sua vida estava crescendo de maneira assustadora e incontrolável.
Ele havia sentido momentos de puro pânico, mas forçara-se a reprimir todas essas emoções com brutalidade, agindo como se absolutamente nada estivesse acontecendo.
Durante muito tempo, ele estivera se submetendo a uma hipnose inconsciente para fugir da realidade.
Mas, agora, ele não conseguia mais enganar a si mesmo sobre a verdadeira natureza dos seus sentimentos.
Encarando o rosto tão familiar à sua frente, Cícero fez um esforço hercúleo para invocar a imagem de Weleska em sua memória.
Contudo, ele constatou com perplexidade que, naquele instante exato, o rosto de Weleska havia sido completamente apagado da sua mente.
A única imagem nítida que restava era a daquele rosto familiar, o rosto inconfundível de Eduarda.
Ele soltou um suspiro profundo e carregado de resignação.
— Eduarda, talvez você realmente tenha vencido essa batalha. — Disse Cícero.
Ela havia deixado de ser aquela sombra patética que orbitava exclusivamente em torno de Cícero.
A antiga Eduarda havia sido definitivamente aniquilada durante aquele coma profundo.
— Eu não me importo com nada do que você está dizendo, nem dou a mínima para o título de Sra. Machado, e vou deixar isso claro pela última vez, na esperança de que você grave isso na memória. — Disse ela.
— Tudo o que eu necessito agora é de um acordo de divórcio e do respectivo certificado, pois não desejo absolutamente nada do resto, muito menos os seus supostos sentimentos, o senhor conseguiu compreender, Sr. Machado? — Disse Eduarda, colocando-se de pé.
Ao se levantar, consumida por uma forte agitação emocional, a visão de Eduarda escureceu por um breve instante, e ela quase perdeu o equilíbrio.
— O que aconteceu com você, por favor, tenha mais cuidado. — Disse Cícero, aproximando-se rapidamente para amparar a cintura dela.
Assim que a sua visão voltou ao normal, Eduarda empurrou Cícero para longe com toda a força que possuía.
Cícero foi pego de surpresa pelo empurrão, e o seu abraço ficou instantaneamente vazio, pois Eduarda já havia girado o corpo e escapado do seu contato.
— Além disso, manter uma proximidade tão íntima entre nós já não é nada adequado. — Disse Eduarda, mantendo-se a uma distância segura e encarando-o com uma indiferença glacial.
— Sr. Machado, eu exijo que o senhor se comporte com a devida decência.

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