A mansão estava fria como gelo.
Bruna, no entanto, veio ao encontro dele e pegou o casaco e a bolsa das mãos de Virgílio, pendurando-os cuidadosamente.
Virgílio franziu levemente as sobrancelhas.
"A senhora?"
"Está no quarto."
A testa de Virgílio se enrugou ainda mais. "Ela já jantou?"
"A senhora disse que não queria comer…"
Virgílio abriu a porta do quarto e entrou. Lúcia estava sentada à mesa, segurando uma tesoura e recortando papel.
Ele se aproximou.
Lúcia ouviu o barulho, mas nem sequer levantou as pálpebras.
Virgílio se encostou à mesa, olhando para ela de cima, com voz baixa: "Não vai jantar, nem cozinhar, não é?"
Lúcia continuou concentrada em seu recorte, ignorando-o completamente.
Uma chama de raiva pulsava no peito de Virgílio.
Ultimamente, ele sentia que tudo estava saindo de controle.
"Lúcia."
A voz de Virgílio soou ainda mais grave e sombria.
Só então Lúcia parou o que estava fazendo, largou a tesoura e, num gesto automático, pegou o acordo de divórcio ao lado, entregando-o a Virgílio.
Quando ele viu as palavras "Acordo de Divórcio", suas pupilas se contraíram; ele arrancou o papel das mãos dela, furioso.
Ruptura total da relação conjugal, separação de bens...
Lúcia já tinha até assinado o nome.
Num instante, Virgílio amassou o acordo e jogou-o no lixo.
Ele lançou um olhar oblíquo para Lúcia, a voz fria e contida: "Você tem uma vida confortável e quer jogar tudo fora. O que realmente deseja?"
Lúcia fez sinais com as mãos: "O que é uma vida confortável?"
Ela soltou uma risada fria e continuou em Libras: "Me diga, o que é uma vida confortável? Uma vida confortável é ter um marido constantemente viajando a trabalho, levando outra mulher para as atividades escolares do filho, fazendo-a passar por mãe do menino, ou então…"
O olhar de Lúcia pousou na parede onde antes havia uma foto do casamento. Suas mãos se moveram de novo em sinais: "Ou é o fato de você nem suportar uma simples foto nossa na parede?"
Virgílio seguiu o olhar dela, encarando a parede.
Ele virou o rosto, e Lúcia também desviou o olhar.

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