Estava desligado.
Abel franziu a testa ao olhar para o número desconhecido. Sua primeira reação foi culpar Maicon por não tê-lo salvo na agenda, mas logo se lembrou de que a ordem fora sua. Com receio de que o contato fosse descoberto, ele havia apenas incluído o número na lista de permitidos.
Em meio ao sono da noite anterior, ele acabara se esquecendo desse detalhe.
Abel entregou o número a Maicon para confirmação.
Maicon confirmou que era Mike. Fora ele quem comprara o relógio inteligente, ativara o chip e salvara o número do Diretor Rocha no aparelho.
— Por que ele ligaria tantas vezes no meio da noite? Será que aconteceu alguma coisa? — indagou Abel, apreensivo.
— Vou ligar para a Família Salvador e perguntar. — sugeriu Maicon prontamente.
— O Mike não pode sofrer nenhum acidente. — disse Abel com um aceno firme.
Caso contrário, tudo estaria acabado entre ele e Inês para sempre.
Maicon afastou-se para fazer a ligação.
— Como o Mike tem passado ultimamente? — perguntou Maicon.
— Ele está bem. O único problema é que a mesada que consigo dar a ele não é muita, sabe como é... — respondeu a família.
— Mil por mês para um garoto no ensino médio não é o suficiente? — rebateu Maicon.
Seria o suficiente para Mike sozinho, mas, com tantas bocas para alimentar na Família Salvador, certamente não era.
— Mil e quinhentos por mês. — disse Maicon com resignação. Ele sabia que a Família Salvador os extorquia de propósito, mas as atitudes do Diretor Rocha também não haviam sido as mais nobres.
— Daqui a uns dois dias, eu vou até a escola para vê-lo e tiro umas fotos para vocês. — responderam os membros da Família Salvador com uma risada satisfeita, achando que aquilo era melhor do que nada.
Dito isso, desligaram.
— A nossa casa agora vai ter mil e quinhentos a mais todo mês. — declarou o patriarca da Família Salvador, esparramando-se no sofá, com um sorriso que ia de orelha a orelha.
— Esse Mike é um menino de sorte mesmo. Graças a ele, moramos numa casa grande e ainda recebemos dinheiro todo mês.
No meio da conversa, alguém bateu à porta.
— Quem é? — perguntou o homem, cambaleando até a saída e abrindo a porta.
Era a polícia.
E assim, o casal foi levado.
— Diretor Simões, Dra. Jardim.
— Diretor Simões, Sra. Jardim.
Após os cumprimentos breves, os olhares de ambos recaíram sobre Mike, ainda com o respirador. Eles hesitaram antes de se aproximar, testando primeiro se o garoto os rejeitaria.
Ele não demonstrou aversão.
Só então os dois se aproximaram.
Inês fez um gesto para que eles se sentassem.
Uma enfermeira bateu à porta e entrou, carregando um relógio inteligente numa bandeja, o qual entregou a Inês.
— A princípio, tentamos ligar pelo relógio do seu irmão, mas o aparelho deu como desligado. Olhamos a agenda e havia apenas um número salvo. Reparei que, no meio da madrugada de ontem, ele tentou ligar várias vezes para esse contato, mas nenhuma foi atendida. — explicou a enfermeira.
— Quando vocês, adultos, trocam de número, precisam avisar às crianças. — repreendeu a enfermeira, repetindo quase as mesmas palavras que a atendente da recepção dissera.
— Sim, entendi. — respondeu Inês prontamente.
— O relógio parece estar sem bateria. Precisará ser recarregado. — concluiu a enfermeira.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Das Cinzas à Glória: A Ascensão da Sra. Jardim
Estou amando o livro, só gostaria de maiores atualizações....
Cade a atualização dos ultimos 10 capitulos?????...