Vinte e oito anos atrás.
O inverno em Cidade King trouxe a primeira grande nevasca, e o vento frio uivava sem parar.
O orfanato daquela época era apenas uma pequena casa térrea cheia de frestas por onde o vento entrava. Como não tinham dinheiro para comprar carvão, dependiam da lenha para se aquecer.
Yara Barros, que na época era filha da diretora, havia acompanhado a mãe até a montanha para recolher lenha. No caminho de volta, viram um bebê deitado no meio do mato à beira da estrada, chorando a plenos pulmões.
Yara, aos vinte e três anos, correu em direção à criança, xingando:
— Que desalmado abandona uma criança assim!
— Espere. — A mãe a interrompeu. — Pode ser que a tenham perdido por acidente. Está vendo? A manta em que a criança está enrolada é azul, não rosa. E olhe os desenhos, são aviões. Essa manta está vendendo muito nas lojas ultimamente e não é nada barata.
Yara exclamou, surpresa:
— Ah? Mas mesmo assim, não podiam deixá-lo aqui. Está nevando sem parar, a neve está caindo até na boquinha dele. Vou pegá-lo no colo para protegê-lo um pouco.
Com a permissão da mãe, Yara pegou a criança. O rostinho, por mais que ela olhasse, não parecia o de um menino. Com dúvidas, ela verificou de perto.
— Mãe! Não é menino! É menina!
A mãe de Yara se aproximou rapidamente e confirmou que realmente era uma menina.
— Mãe, ela foi abandonada! Ninguém gosta de meninas. Quero só ver quando todos tiverem apenas filhos homens, quando não houver mais meninas, ninguém vai conseguir arrumar uma esposa.
— Pare de gritar, enrole-a direito. Amanhã a levaremos à delegacia para ver o que descobrimos.
— Está bem. — Yara segurou o bebê bem apertado e, enquanto caminhava, resmungou: — Você acha que a família inteira esperou ansiosamente por um menino, até compraram a manta, e quando nasceu uma menina, simplesmente a jogaram fora?
A mãe a repreendeu:
— Deixe de adivinhar bobagens.
Yara retrucou:
— Pode não ser bobagem. Mãe, você mesma não foi expulsa pelos meus avós só porque teve a mim, que sou mulher?
Ao perceber que a expressão da mãe escureceu, Yara se calou imediatamente e pediu desculpas.
A mãe não ficou brava; apenas acariciou a cabeça da filha e disse:
— Sempre que pensar nisso, lembre-se do motivo de eu ter escolhido o seu nome. Eu sempre celebrei a sua chegada.
No dia seguinte, Yara levou a criança à delegacia junto com sua mãe.
Elas relataram como haviam encontrado a bebê, e a delegacia começou a ajudar nas buscas, verificando se havia algum registro de desaparecimento em outras regiões.
Yara ia todos os dias da delegacia para o orfanato com a bebê nos braços, e isso durou quinze dias consecutivos.
Durante esse tempo, a neve parava e voltava a cair sem cessar.
No décimo sexto dia, sua mãe lhe disse:
— Yara, não vá mais. Se houvesse alguma notícia, já saberíamos.
Com os olhos cheios de lágrimas, Yara perguntou:
— Só porque ela é uma menina?
A altura de Inês era rara entre as pessoas daquela região.
Ela lembrava mais as pessoas do Sul.
No entanto, naquela época, se alguém do Sul fosse migrar para outras partes do mapa, não seria exatamente para onde elas estavam.
Inês se curvou para abraçar Dra. Barros:
— A senhora nunca me disse que eu fui a primeira criança que a senhora encontrou. Não é à toa que só eu a chamo de Dra. Barros.
Yara deu tapinhas nas costas dela e disse, sorrindo:
— Quando vocês eram pequenos, eu não tinha coragem de falar sobre essas coisas na frente de vocês. Depois que cresceram, como vocês não perguntavam, nós também evitávamos tocar no assunto.
— Obrigada por me trazer para casa, Dra. Barros.
— Eu sei, eu sei. — Yara a soltou e perguntou: — Você tem vontade de procurar a sua família? Nós registramos as informações na época, guardamos os papéis e, depois, também passamos para o computador. Mas, naquela época, os dados que conseguimos reunir eram mínimos.
Inês apertou os lábios e disse:
— Deixe o destino decidir.
Se ela tivesse sido abandonada de propósito, não haveria motivo para procurar.
Se a tivessem perdido por acidente, com certeza teriam virado o mundo de cabeça para baixo procurando por ela.
Bastava que ela alcançasse uma posição de destaque. Se a sua família continuasse procurando por ela, certamente a veriam, a achariam familiar, teriam dúvidas e tentariam se aproximar.
Ao pensar em alguém tentando se aproximar dela intencionalmente, Inês se lembrou de Lucinda.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Das Cinzas à Glória: A Ascensão da Sra. Jardim
Estou amando o livro, só gostaria de maiores atualizações....
Cade a atualização dos ultimos 10 capitulos?????...