Ela sentiu os olhos arderem em lágrimas.
— Marcelo o que está acontecendo?— perguntou preocupada.
— Sabe... amar você… — ele respirou fundo. — Foi o sentimento mais bonito que já aconteceu comigo. E também o mais difícil de lidar.
Ela pousou a mão no rosto dele outra vez, um sorriso fraco surgindo nos lábios.
— Eu nunca vou te deixar. — disse. — Nunca.
Marcelo fechou os olhos por um instante e encostou a testa na mão dela, como se buscasse ali algum tipo de abrigo.
— Promete que não vai embora se eu fizer algo que você não goste? — perguntou.
Milena assentiu, mesmo sem saber de tudo.
— Desde que não seja me trair ou esconder algo sério, eu prometo.
Ele a olhou e sentiu um aperto no peito, sabendo que desde que ela cruzou o caminho dele, ele nunca foi verdadeiramente sincero com ela.
Ela ajudou Marcelo a deitar, cobriu-o com cuidado e ficou ali por alguns segundos, observando a respiração dele se acalmar. Só então se deitou devagar, sentindo o peso da barriga e algo mais pesado ainda no peito.
Na manhã seguinte Marcelo acordou sentindo o mundo girar devagar demais para ser suportável. A cabeça latejava como se alguém martelasse por dentro do crânio, cada batida sincronizada com o próprio coração. O gosto amargo na boca denunciava o excesso da noite anterior, mas não era só a ressaca que o fazia querer fechar os olhos de novo e fingir que nada existia.
O calor do corpo de Milena ainda estava ali. Ela dormia de barriga para cima, ele permaneceu encaixado contra ela, observando a respiração tranquila apesar do peso da barriga. O braço dela repousava sobre o peito dele, a mão aberta, confiante.
Marcelo engoliu em seco. Devagar, com cuidado quase reverente, soltou os dedos dos dela. Cada movimento parecia errado. Sentou-se na beira da cama, os pés tocando o chão frio, e passou a mão pelo rosto várias vezes, tentando afastar a dor, o cansaço, a culpa.
Até que percebeu que não tinha sido um sonho. Kethelyn realmente havia acordado e o culpava por não poder andar.
E o pior de tudo era que ela estava mostrando um lado que ele nunca quis enxergar.
Por anos, Marcelo construiu uma imagem confortável do passado. Dizia a si mesmo e para as outras pessoas, que antes do acidente tudo era simples, bonito, equilibrado. Que Kethelyn era doce, frágil, dependente apenas do amor dele. Era mais fácil acreditar nisso do que encarar a verdade: o relacionamento já era pesado, cheio de cobranças, chantagens emocionais disfarçadas de fragilidade.
Por um segundo, ele fechou os olhos, apoiando os cotovelos nos joelhos.
Milena se mexeu na cama sentindo os lençóis ainda quentes.
Marcelo imediatamente se virou, o corpo inteiro em alerta, como se tivesse sido pego fazendo algo errado.
Ela abriu os olhos devagar, piscou algumas vezes até focar nele. Quando conseguiu, sorriu. Um sorriso pequeno, ainda sonolento, mas genuíno.
— Bom dia, amor… — murmurou.— Acordou bem?
Ele se aproximou outra vez, inclinou-se e depositou um beijo leve na testa dela. Sua mão acariciou a barriga dela com carinho.
— Bom dia, princesa. Estou bem.
Milena levou a mão ao rosto dele, sentindo a barba por fazer, os traços cansados.
— Você não parece muito bem. — comentou com suavidade.

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