Do outro lado da linha, o advogado hesitou por um segundo longo demais.
— Heitor... — o tom de Shirley soou cauteloso. — Eu já verifiquei isso depois que seu avô me ligou. Infelizmente, não temos o registro desse dia.
Heitor franziu o cenho, o maxilar travando.
— Como assim não têm? Seu escritório vive se gabando de ter o melhor sistema de segurança da cidade.
Shirley pigarreou, claramente desconfortável.
— Houve uma falha técnica inesperada. O servidor onde as imagens ficam armazenadas por 90 dias apresentou um problema de sobrecarga naquela semana. Tudo daquele dia foi perdido. Não tem backup. Já chamei a empresa responsável e eles confirmaram que o disco rígido onde estavam os arquivos foi corrompido completamente.
Heitor ficou em silêncio por alguns segundos, sentindo o sangue ferver.
— Falha técnica? — repetiu, a voz baixa e perigosa. — Conveniente demais.
— Também achei estranho...
— Espera... meu avô te ligou, você disse? — Heitor interrompeu, o tom afiado como lâmina. — Quando exatamente?
Shirley hesitou novamente.
— Ontem à noite. Ele me pediu para verificar os arquivos. Disse que era só precaução.
Heitor soltou uma risada baixa, sem qualquer humor.
— Precaução. Claro.
Ele encerrou a ligação sem se despedir, jogando o celular com força sobre o sofá. Danilo, que observava de longe, deu um passo à frente.
— O que aconteceu?
— As câmeras do dia que a barriga de aluguel esteve no escritório de Shirley sumiram como num passe de mágica. — Heitor passou a mão pelo rosto, os olhos brilhando de fúria contida. — E meu querido avô já tinha ligado antes de mim para “verificar”.
Danilo que estava com os ombros tensos soltou um suspiro baixo.
— Ele... deve estar protegendo a garota.
— Proteger do que? Sou algum assassino e não estou sabendo? — perguntou Heitor, virando-se para a janela novamente. A chuva ainda caía forte lá fora. — Me diz quem é essa garota, Danilo. Por que ele a protege tanto assim... e por que pareceu que Sophia e ele estavam discutindo? De onde eles se conhecem.
Danilo sustentou o olhar por um instante, mas logo desviou. Conhecia Heitor tempo suficiente para saber que, quando ele entrava nesse modo, não parava até conseguir respostas. O problema era que a verdade era mais complicada que ele imaginava.
— Eu não sei todos os detalhes...— mentiu, escolhendo as palavras com cuidado. — Seu avô sempre foi reservado com os assuntos pessoais. Talvez ela tenha trabalhado para a família antes, ou talvez tenha algum tipo de dívida com ele. Você sabe como Richard é... coleciona favores como se fossem ações na bolsa.
Heitor estreitou os olhos.

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