O sorriso da mulher permaneceu ali, suspenso, como se esperasse algo que Milena não conseguia entregar.
Ela franziu levemente a testa, sentindo um incômodo estranho crescer dentro do peito. Não era reconhecimento. Era algo mais difuso, como uma sensação antiga tentando emergir sem conseguir se formar por completo.
— Eu… — Milena começou, mas a frase morreu antes de ganhar corpo.
A mulher pareceu perceber. Com um gesto lento, quase calculado, levou a mão até os cabelos ruivos e os colocou atrás da orelha, expondo o lado do pescoço.
Foi então que Milena viu. Uma marca de nascença delicada, em tom levemente mais escuro que a pele clara, desenhando algo que lembrava uma flor imperfeita, orgânica, quase como uma tatuagem natural.
O mundo girou. O ar ficou pesado demais, o quarto pareceu se inclinar. Milena sentiu o estômago revirar e uma pressão súbita tomar conta da cabeça.
Ela não sabia quem aquela mulher era. Mas sabia que já tinha visto aquela marca em algum lugar.
A sensação veio como um choque silencioso. Um déjà-vu agressivo, sem imagem, sem nome, sem explicação. Apenas a certeza desconfortável de que aquilo não era novo.
A mão de Milena apertou o lençol com força.
— Eu… eu conheço isso… — murmurou, mais para si mesma, a voz falhando.
A mulher sorriu. Dessa vez, o sorriso foi diferente. Sutil. Vitorioso.
— Conhece? — perguntou, suavemente. — Que bom saber disso.
Os batimentos cardíacos de Milena aceleraram de forma abrupta. O monitor começou a apitar mais rápido, denunciando o que o corpo já gritava. A pressão subiu quase instantaneamente, e a respiração tornou-se curta, descompassada.
— Para, me fala quem é você… — Milena sussurrou, levando a mão à barriga. — Por favor…
As pernas ficaram fracas, e uma onda de náusea a atravessou. O quarto parecia distante, como se ela estivesse sendo puxada para dentro de si mesma.
A mulher deu um passo para trás. Por um segundo, seus olhos perderam o brilho calculado e revelaram algo próximo da hesitação. Aquilo não tinha saído como ela esperava.
— Acho que não é um bom momento... — disse, fria, ajeitando o vestido. — Você sempre foi sensível demais.
Ela se virou rapidamente e saiu do quarto, os passos ecoando pelo corredor.
No mesmo instante, a porta se abriu com força.
— Milena! — a médica entrou quase correndo, seguida da enfermeira. — Olha pra mim, respira comigo!
O cheiro do perfume ainda pairava no ar quando a médica começou a agir com rapidez, ajustando os equipamentos, verificando pressão e batimentos.
— Pico emocional intenso. — murmurou. — Muito intenso.
Milena chorava sem saber por que. As lágrimas escorriam silenciosas enquanto o corpo tremia.
— Aquela mulher… — tentou dizer. — Aquela marca… eu já vi…
— Agora não, querida. — a médica interrompeu com firmeza gentil. — Depois conversamos. Foca na respiração.
Foram longos minutos até que os números no monitor começassem a ceder. A pressão baixou aos poucos. O coração desacelerou, ainda irregular, mas menos assustador.
Milena estava exausta quando a porta se abriu novamente.
Marcelo entrou quase correndo. A camisa estava abotoada de qualquer jeito, um botão fora do lugar. Os cabelos ainda úmidos denunciavam que ele tinha saído às pressas da mansão assim que recebeu a ligação.
— Milena… — disse, indo direto até ela.

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