Lívia gritou desesperada. Com rapidez levantou e se colocou na frente de Milena recebendo uma facada no ombro.
O impacto veio junto com a dor. A lâmina entrou profunda o suficiente para arrancar um grito abafado. O sangue começou a manchar a roupa quase imediatamente.
— Lívia! — Milena gritou, segurando-a antes que ela caísse.
O homem recuou por um segundo, surpreso com a reação, tempo suficiente para seguranças do hospital começarem a se aproximar, alertados pelo barulho e pelo grito.
Mas mesmo com a agilidade, ele fugiu.
Lívia caiu de joelhos, respirando com dificuldade, o rosto pálido, mas os olhos firmes.
— Tá tudo bem… — ela disse, forçando um sorriso torto. — Eu jurei que não deixaria nada chegar perto de você.
Milena tremia inteira. Chorava sem conseguir parar, segurando o rosto de Lívia com as mãos manchadas de sangue.
— Você é louca… — sussurrou, desesperada. — Você podia ter morrido… por minha causa…
Lívia levantou a mão boa e tocou a barriga dela com cuidado.
— Não. — disse, com a voz fraca, mas convicta. — Por eles. Por você. E eu faria de novo.
As sirenes se aproximavam. Médicos e seguranças cercaram as duas.
Enquanto Lívia era colocada na maca, Milena caminhava ao lado, em choque.
As portas da sala de cirurgia se fecharam com um som seco.
Milena ficou parada por alguns segundos, encarando o letreiro vermelho que indicava cirurgia em andamento. Quando o corpo finalmente cedeu, foi devagar. Sentou-se no banco encostado à parede, os ombros curvados, a cabeça baixa.
— Ela vai ficar bem... ela precisa ficar bem.— Murmurou, com as mãos tremendo sem controle.
Havia sangue nos dedos, no casaco claro, na barra da calça e no rosto. O cheiro metálico ainda parecia grudado nela. Milena tentou respirar fundo, mas o ar não descia direito. O coração batia rápido demais, irregular.
Ela apertou as mãos contra o colo, tentando controlar a angústia que a invadia cada vez mais.
Foi nesse instante que o elevador se abriu no fim do corredor.
Marcelo saiu com passos apressados, um buquê de flores nas mãos. Havia acabado de chegar de viagem. Não avisou. Queria surpreendê-la, buscá-la pessoalmente. Seus planos eram levá-la para jantar, ouvir sua voz sem a interferência de telas.
No balcão da enfermagem, perguntou por ela.
— Milena Carlson… — disse, já inquieto. — Sabe me dizer onde ela está?
A enfermeira sorriu de forma automática, sem perceber.
— Corredor três. Próximo ao centro cirúrgico.
Marcelo estreitou a sobrancelha, agradeceu e seguiu, mas algo começou a apertar no peito antes mesmo de vê-la. Um pressentimento estranho, pesado.
Quando dobrou o corredor, o mundo pareceu perder o som por um segundo. Milena estava sentada sozinha no banco, corpo levemente curvado.
Ele reduziu um passo quando viu o sangue em sua roupa. O corpo de Marcelo reagiu antes da mente. As mãos se abriram, e o buquê caiu no chão, espalhando pétalas brancas pelo piso frio. O coração disparou de um jeito que ele nunca tinha sentido. As pernas tremeram, quase falharam.
— Milena… — chamou, a voz saindo quebrada, irreconhecível.
Ela levantou a cabeça devagar, os olhos marejados, perdidos. Quando o viu, foi como se toda a força que ainda a mantinha em pé tivesse ido embora de vez.

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