Milena estava sentada na beira da cama havia tempo demais. Sua perna tremia de ansiedade e agonia.
O celular repousava sobre a colcha clara, a tela acesa mais uma vez, exibindo a conversa que não avançava. Nenhuma notificação nova, apenas o último “já chego” enviado por Marcelo horas antes.
Ela desbloqueou a tela de novo, num gesto quase automático. Sem perceber, o dedo deslizou até a galeria. A mensagem de Katherine ainda estava ali.
Milena leu outra vez. As palavras continuavam afiadas, calculadas para machucar. Para plantar dúvida e fazê-la sentir exatamente o que sentia agora: pequena, deslocada, temporária e substituível.
Ela fechou os olhos por um instante.
— Não, Katherine. Não vou permitir que mexa com minha cabeça.— ela disse apertando o celular contra o colchão e respirando fundo.
Instintivamente, levou a mão ao ventre. O gesto foi automático, protetor. Um carinho leve, quase tímido. O coração aqueceu. Um sorriso pequeno surgiu, apesar de tudo.
— O papai já vai chegar… — murmurou. — E nada disso vai importar.
Deitou-se, puxando o lençol até o peito, tentando forçar o corpo ao descanso. Mas a mente se recusava a desligar. Cada ruído da casa parecia mais alto. Cada sombra no teto, mais presente.
Foi quando se assustou ao ouvir um barulho seco vindo do andar de cima. Milena abriu os olhos imediatamente, o corpo ficando rígido. O som foi discreto, mas inconfundível. Algo havia caído. Vidro, talvez.
O coração acelerou, ela estava sozinha na mansão. Talvez Marcelo tivesse chegado e ido direto para o terceiro andar. Ela se sentou na cama tentando identificar se era ele ou apenas o vento. Pegou o celular e ligou para ele, mas o telefone só chamava.
Com um suspiro baixo levantou devagar. O chão frio sob os pés fez um arrepio subir pelas pernas enquanto ela caminhava até o corredor. Precisava se mover e afastar aquela sensação de sufocamento que se acumulava no peito, mas o silêncio da mansão parecia mais profundo.
Ela subiu as escadas do lugar que, desde o primeiro dia, lhe foi proibido.
Ao pisar no último degrau, ar parecia diferente. Mais pesado. O corredor era longo e pouco iluminado, e ao fundo estava a porta que sempre despertara curiosidade. A única que permanecia trancada e intocada para qualquer outra pessoa.
Milena parou diante dela. A trava de segurança brilhava sob a luz amarelada, reconhecendo apenas a digital dele.
— Será que esse também era o quarto de Kethelyn…? — murmurou, sentindo um frio estranho no estômago.
A curiosidade quase venceu o bom senso. Mas algo naquele corredor a fazia se sentir observada.
Ela se afastou, decidida a descer e esperar Marcelo no andar de baixo. Não podia adiar a conversa sobre a gravidez.
Antes que pudesse se afastar da porta, notou algo no chão. Um brilho discreto. Milena se abaixou lentamente. Viu um vaso de flores frescas estava caído, os girassóis espalhados pelo piso. Ao lado, uma moldura com vidro trincado formando uma linha irregular.
O coração dela acelerou assim que virou a moldura com uma foto de Kethelyn.
— Ele disse que tirou todas as fotos dela...— murmurou com lágrimas nos olhos.
Ela apertou a moldura com força, sentindo o peso simbólico daquilo esmagar seu peito. Marcelo havia dito que não havia mais fotos dela. E isso tornava aquele retrato ainda mais doloroso.
Ao lado da moldura, algo dourado chamou sua atenção. Uma corrente fina de ouro. Milena a pegou com cuidado extremo. Nela tinha um anel preso, pequeno, delicado. A gravação interna quase a fez perder o ar.
“Meu amor por você é eterno.”

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