O escritório da grande empresa da família estava mais silencioso do que o habitual naquela tarde.
Não era apenas a ausência de reuniões ou o fim do expediente que criava aquele vazio estranho, mas algo mais pesado, quase opressor.
Marcelo permanecia sentado atrás da mesa de vidro, inclinado para a frente, os cotovelos apoiados, os dedos pressionando a própria têmpora como se pudesse conter, com força física, o turbilhão dentro da cabeça.
Desde a manhã, não conseguia se concentrar em nada. Os números nos relatórios se embaralhavam. Os e-mails se acumulavam sem resposta. O contrato dobrado na gaveta parecia queimar, mesmo sem ser tocado.
A porta se abre sem muita cerimônia.
— Você está vivo aí dentro, De Valliére? — a voz debochada veio antes da figura aparecer por completo.
Thomas entrou com o sorriso torto de sempre, aquele de quem nunca teve medo de atravessar limites. Irmão de Alan, amigo antigo, um dos poucos homens naquele prédio que não o tratava como um CEO intocável.
Marcelo ergue os olhos, cansado.
— Entra logo.
Thomas fechou a porta com o pé e cruzou os braços, observando-o com atenção.
— A gente tinha almoço marcado. Faz quinze minutos que eu tô te esperando no saguão. Devia ter imaginado que você ia esquecer.
Marcelo suspirou, passando a mão pelo rosto.
— Minha cabeça tá cheia.
— Percebi. — Thomas lançou um olhar rápido ao redor da sala, impecável demais para refletir o caos do dono. — Mas cheia com o quê, exatamente? Acionistas? Projetos do trimestre? Ou… — fez uma pausa calculada, erguendo a sobrancelha — a universitária gata que virou sua vida de cabeça para baixo?
O olhar de Marcelo subiu lentamente até encontrar o dele. Um aviso silencioso.
Thomas não se intimidou.
— E antes que você tente mudar de assunto… — aproximou-se da mesa — eu também queria perguntar outra coisa. Você recebeu alguma notícia da Kethelyn? Fiquei sabendo que…
O nome caiu pesado no ar, como se tivesse peso próprio.
Marcelo respirou fundo, interrompendo-o.
— Não vou falar sobre isso.
— Você não fala sobre isso há semanas. — Thomas rebate, sem perder o tom calmo. — Desde que conseguiu fazer Milena se aproximar... você praticamente cortou qualquer visita. Isso não é normal, Marcelo.
— Chega, Thomas!
O tom saiu mais duro do que ele pretendia.
Thomaz deu um meio sorriso.
— Ela era sua noiva. Era inevitável que eu perguntasse.
Marcelo fechou os olhos por um instante. Por dentro, segurava um muro inteiro para não desabar. Quando abriu novamente, a voz saiu firme, ensaiada.
— Deixa isso no passado!
Thomas levantou a sobrancelha e cruzou os braços.
— Como assim deixar passado, De Valliére?
— Eu estou tentando superar o que aconteceu, Thomas.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contrato de Barriga de Aluguel para o Bilionário