O interior do jatinho era silencioso demais para alguém com a mente em conflito. Heitor estava sentado, o corpo inclinado levemente para frente, os cotovelos apoiados nas pernas. O pé batia no chão em um ritmo irregular, denunciando uma ansiedade que ele não fazia questão de controlar.
O celular permanecia firme em sua mão. Na tela, a imagem congelada de um instante que não deveria existir. Sophia, sentada à mesa no restaurante, o sorriso leve, quase tímido, voltado para algo que não era ele. A foto havia sido tirada sem que ela percebesse, num impulso que ele não teve tempo de questionar.
Heitor passou o polegar pela tela, ampliando a imagem como se isso fosse aproximá-lo de algo que já tinha escapado há muito tempo. Observou o sorriso dela por mais alguns segundos antes de soltar o ar, pesado, frustrado.
E novamente ele não podia decidir nada da sua vida. Nunca foi sobre escolher o que queria, mas sobre sustentar o que já tinha sido decidido por ele muito antes de entender o peso disso. A herança que Arthur tanto lamentava não ter não era privilégio. Era responsabilidade. Era controle. Era renúncia. E, acima de tudo, era silêncio.
Enquanto Arthur sempre teve espaço para errar, para cair e ser recolhido pelos pais depois, Heitor aprendeu cedo que não existia margem para falhas. Que cada decisão carregava consequências que iam além dele. Que não havia ninguém para amortecer o impacto caso ele escolhesse errado.
Só os avós. E depois que a avó morreu, nem isso permaneceu intacto. A pressão não diminuiu. Se intensificou. Cresceu em silêncio, se tornando parte dele de um jeito que já não dava para separar.
Por causa daquela herança, ele perdeu mais do que uma noite mal resolvida. Perdeu tempo de explicar. Perdeu o controle e partes da própria vida que nunca conseguiu recuperar.
Heitor encostou a cabeça no banco por um instante, fechando os olhos, mas a imagem de Sophia continuou ali, insistente, ocupando um espaço que ele não deveria permitir. Ela sempre seria o seu maior arrependimento. Todos os dias ele pensa em como seria se tivesse tido coragem para enfrentar os pais e ir atrás dela para dizer que ele tem um irmão e é Arthur quem ela odeia.
— Até quando vou precisar invalidar o que sinto...— murmurou apertando o assento com força, os dedos perderam a cor por um breve momento.
O celular permaneceu em sua mão por mais alguns segundos antes de a tela apagar. O reflexo escuro devolveu o próprio olhar, mais duro do que ele gostaria de admitir. Heitor passou o polegar pela tela uma última vez, como se ainda pudesse encontrar ali algo que o fizesse voltar atrás, mas não encontrou. Guardou o aparelho no bolso e recostou a cabeça por um instante, fechando os olhos apenas o suficiente para reorganizar o que vinha pela frente.
Quando o jatinho tocou o solo, ele já estava de pé antes mesmo da aeronave parar completamente.
Não houve pausa, nem respiro, do aeroporto, seguiu direto para a empresa. O carro avançou pelas ruas de Berlim com rapidez controlada, mas, para Heitor, ainda parecia lento demais. O olhar permanecia fixo à frente, distante, enquanto a mente continuava em outro lugar.
Quando atravessou as portas de vidro da filial, o ambiente reagiu. Alguns funcionários ergueram o olhar imediatamente. Outros fingiram não perceber, mas o desconforto se espalhou da mesma forma. A presença dele ali não era comum e definitivamente não naquele clima.
— Senhor Heitor. — uma funcionária se aproximou apressada, visivelmente aliviada por vê-lo. — Que bom que chegou. Nós estávamos...
— Me leve para a sala de reuniões. — ele cortou, sem elevar o tom.
A mulher assentiu na mesma hora, ajustando o passo para acompanhá-lo.
O som dos sapatos no piso ecoava com precisão, marcando o ritmo firme com que ele atravessava o corredor. Ninguém tentou interromper. A porta da sala de reuniões já estava aberta quando chegaram. Heitor entrou sem desacelerar.
Os executivos estavam posicionados ao redor da mesa, alguns com relatórios abertos, outros apenas aguardando. O silêncio era pesado, carregado de expectativa e receio.
Ele não cumprimentou ninguém e ninguém ali parecia confortável, e isso ficou ainda mais evidente quando ele ocupou a cabeceira sem dizer uma palavra. Não se sentou de imediato, folheou os documentos que haviam sido deixados à sua frente, analisando números, assinaturas, movimentações que não batiam. A cada página virada, a expressão ficava mais fechada.

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