No dia seguinte, o clima na empresa estava diferente, pesado suficiente para ser percebido antes mesmo de qualquer palavra ser dita. Heitor sentiu isso assim que cruzou a recepção. Não foi o silêncio, nem os olhares desviados, foi uma sensação mais sutil, mais incômoda.
— O que está acontecendo nesta empresa hoje? — perguntou à secretária.
Luanda desviou o olhar para a porta do escritório dele.
— O senhor... tem visitas.
Heitor levantou a sobrancelha.
— Quem?
— O seu irmão, senhor.
Heitor estendeu a mão na mesa dela e baixou a cabeça apertando os lábios.
— Ótimo. É tudo que eu precisava.
Ao abrir a porta encontrou Arthur encostado na mesa, mexendo no celular com a mesma postura despreocupada de sempre, como se aquele espaço ainda fosse dele por direito. O olhar levantou no exato momento em que a porta se abriu, e o sorriso veio fácil demais.
— Olha só… O dono da porra toda chegou cedo.
Heitor fechou a porta atrás de si sem pressa. Não respondeu, caminhou até a mesa, deixou os documentos sobre a superfície com precisão calculada e só então ergueu o olhar.
— O que você quer?— Havia frieza na voz dele.
Arthur soltou um riso baixo, empurrando o próprio corpo para longe da mesa.
— Relaxa. Só vim ver como você está.— A pausa que ele fez não foi inocente.— Ou melhor… como anda essa história da barriga de aluguel.
O ar mudou de forma quase imperceptível.
Heitor não elevou o tom, mas o olhar endureceu.
— Cuidado com o que você fala.
Arthur deu de ombros, como se aquilo não tivesse peso algum.
— Qual é… até parece que o mais cobiçado empresario e bilionário Heitor Pritzker não dá conta do recado sozinho.
O silêncio que se formou não foi vazio. Foi pesado.
Heitor apoiou as mãos na mesa, inclinando o corpo levemente à frente, encarando o irmão com um desprezo que já não fazia questão de esconder.
— Diferente de você, eu não preciso usar o meu nome para encostar em mulher nenhuma.
A mudança foi imediata. Arthur perdeu o sorriso por um segundo. Foi rápido, mas suficiente.
— Foi uma vez.
— Uma vez? Você acha pouco ainda?
Arthur passou a mão pelo cabelo, desviando o olhar por um instante, como se procurasse qualquer coisa que aliviasse o peso daquilo.
— E por causa disso eu perdi tudo. O vovô me deserdou. Minha mãe tem vergonha de mim. Você acha mesmo que isso não foi punição suficiente?
Heitor não hesitou.
— Não.
A resposta veio seca, direta, sem espaço para negociação.
Arthur engoliu em seco, o desconforto finalmente rompendo a superfície.
— Você sabe que eu não isso fiz consciente.
Heitor soltou um riso curto, sem humor algum.
— Isso muda o quê exatamente?

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