Ao voltar para a Vila Fluxa, Aurora parecia ter recebido uma injeção de ânimo e mergulhou de cabeça no escritório.
Depois de alguns dias de preguiça, ela voltara a ser cheia de energia.
Davi só chegou bem tarde.
Os dois jantaram em silêncio, e logo Aurora voltou para o escritório.
Davi olhou para a porta fechada, as sobrancelhas profundamente franzidas.
Nesses dias, nenhum dos dois voltou a tocar no assunto dos filhos.
Para aliviar o clima, ele até tentou quebrar o gelo com a intimidade do toque.
Mas, depois daquela noite, parecia que eles estavam ainda mais distantes.
Ela já não o chamava de marido, nem tomava a iniciativa de lhe dizer qualquer palavra.
Mesmo com ele em casa, ela se trancava no escritório.
À noite, Aurora terminou de se arrumar para dormir e deitou-se como de costume, porém de costas para ele.
No escuro, o braço do homem se estendeu, puxando-a para junto de si, abraçando-a pelas costas.
"Amanhã estarei livre e vou ficar em casa com você. Tem algum lugar que queira ir?"
Aurora recusou friamente: "Amanhã tenho compromissos, vou sair."
Davi, por instinto, apertou o abraço, envolvendo-a mais forte, como um cão grande carente de segurança, encostando o queixo no ombro dela, o hálito quente roçando o ouvido sensível dela.
"Então eu vou com você, tudo bem?"
A orelha de Aurora formigou.
Ela, porém, fez questão de responder na voz mais calma possível, dizendo apenas três palavras:
"Não é conveniente."
Na mesma hora, as sobrancelhas de Davi se apertaram ainda mais, e sua voz ganhou um tom de mágoa.
"Amor, não faz isso comigo, por favor?"
Aurora se virou de repente, encarando-o no escuro.
"E você?" retrucou ela. "Não pode ser um pouco mais sincero comigo?"
Davi ficou em silêncio.
A irritação de Aurora cresceu; ela afastou com força o braço que a segurava, a voz fria:
"Tira a mão!"
Ela aproveitou para escapar do abraço dele, afastando-se para a beirada da cama, irritada.
Mas, no segundo seguinte, o corpo quente dele se uniu novamente ao dela, com uma teimosia grudenta, prendendo-a de volta em seus braços.
A voz rouca:
"Então, amanhã, tome cuidado quando sair. Se precisar de mim, é só chamar."
A raiva de Aurora só aumentou!
Em nenhum momento ela indicou que o deixaria entrar.
O rosto de Nelson ficou sombrio. Ele afastou com força o braço do segurança e entrou no elevador com uma passada larga.
Ele a encarou e questionou: "Aurora, você prometeu ser minha amiga. Vai quebrar a palavra?"
O segurança, vendo a situação, consultou: "Diretora Franco, deseja que eu o retire?"
Aurora franziu a testa. "Não precisa."
Faltavam só alguns segundos para chegar ao térreo, então não faria diferença.
Ela se encostou em um canto do elevador, aumentando a distância.
As portas se fecharam devagar. Nelson ficou no centro e, de repente, falou:
"Me deixe voltar."
Vendo que Aurora não reagiu, ele continuou: "Se você não tivesse me bloqueado, eu teria conseguido te avisar imediatamente na última vez. Você não teria sido levada para aquele lugar horrível e quase morrido lá."
Aurora refletiu, mas permaneceu impassível.
A voz de Nelson ganhou urgência:
"Aurora, nesse momento, será que você não pode deixar essas mágoas de lado e se unir a mim contra o nosso inimigo comum?"
Aurora finalmente ergueu os olhos para ele e perguntou:
"E o que você pretende fazer?"

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