Nelson só então, com relutância, soltou a mão dela e disse: "Depois vou falar com a administração do condomínio, cancelar a permissão daquele carro que acabou de passar."
Assim que Aurora recuperou a liberdade, imediatamente quis se afastar a passos largos.
Mas, ao se virar, deu de cara com um par de olhos negros, profundos como um abismo.
Davi já estava diante dela.
O coração de Aurora deu um salto. Aquela cena de agora há pouco... ele viu tudo?
Mas Davi não perguntou nada. Ele apenas avançou decidido, segurou a mão dela e, erguendo o olhar, fitou Nelson friamente.
"Se você ousar encostar nela de novo, pode dar adeus à sua mão!"
Nelson arqueou a sobrancelha, o tom repleto de provocação: "Se não fosse por mim agora há pouco, ela teria sido atropelada."
"O que foi? Quer que eu fique parado vendo alguém se machucar sem ajudar?"
Davi lançou-lhe um olhar de advertência e, em seguida, baixou os olhos para Aurora, certificando-se de que ela estava bem. Então pegou o celular e ligou para a administração.
"Tem um carro preto acelerando demais perto do prédio sete, verifiquem as câmeras e tomem as providências conforme o regulamento."
Em residências de luxo como a Vila Fluxa, havia regras rigorosas sobre a velocidade dos carros dentro do condomínio.
Bastava um morador denunciar o excesso de velocidade e, após a verificação, o veículo era colocado na lista negra — nunca mais poderia entrar.
Davi desligou o telefone, segurou a mão de Aurora e saiu com ela dali.
Jogou as chaves da Bentley para o segurança que vinha ao encontro deles.
Nelson permaneceu parado, assistindo à postura resoluta de Davi, e seu olhar foi se tornando cada vez mais sombrio.
...
No elevador, o clima era estranho.
Nenhum dos dois disse palavra.
Davi pensou que, ao menos, ela daria alguma explicação.
Explicaria por que estava com Nelson, explicaria aquele quase-abraço que nem chegou a ser um abraço.
Mas ela não disse nada.
Aurora até se desvencilhou da mão dele, abaixando a cabeça para ajeitar o casaco.
O olhar de Davi pousou sobre ela. Debaixo do casaco, ela usava um conjunto de roupa de golfe.
Ele foi o primeiro a falar: "Saiu para se divertir com a Susana?"
"Ela estava ocupada, não deu para combinar." A voz de Aurora era fria, sem emoção.
Davi franziu o cenho, e por fim não se conteve: "Por que você estava com ele?"
Aurora manteve o mesmo tom distante: "Nos encontramos por acaso, conversamos um pouco."
Nenhuma explicação a mais, nem uma palavra extra.
A testa de Davi se fechou ainda mais.
Com um "ding", a porta do elevador se abriu.
Aurora saiu primeiro, tirando o casaco assim que entrou em casa.
Ela olhou para ele, decepcionada.
"Eu só não esperava que até você achasse que seus próprios filhos são um azar."
"Desde o começo, você escondeu minha gravidez, depois não quis saber o sexo dos bebês... Você nunca demonstrou a alegria de quem vai ser pai."
"Para você, eles... são só um peso, não é?"
Davi apertou os lábios, o pomo de Adão subiu e desceu, mas ele não conseguiu explicar seus receios e conflitos.
Mas para Aurora, o silêncio dele era uma confirmação.
O último brilho em seus olhos também se apagou.
"Heh." Aurora soltou um leve riso, cheio de amargura.
"Davi, foi você quem insinuou primeiro que queria ter um filho."
"Eu me esforcei para superar meus traumas, tentei te acompanhar, considerei cada passo por você."
"Essas crianças foram uma surpresa para mim, mas, acima de tudo, uma alegria."
"Eu achei que você ficaria feliz como eu."
"Mas e o que aconteceu?"
"No fim das contas, qual é a diferença entre você e essas pessoas lá fora, presas a tradições ultrapassadas?"
"O que você quer não são filhos, mas apenas um instrumento para continuar o seu sangue!"

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