— Você é doido! — Ivone disparou, tomada pela raiva.
Só que o apartamento ao lado do dela parecia sempre abandonado. Em todos aqueles meses, ela nunca tinha visto ninguém entrando ou saindo dali. Como alguém abriria a porta para Fabiano no meio da madrugada?
Então, de repente, tudo fez sentido.
— O apartamento ao lado do meu... é seu? — Perguntou Ivone.
Ivone encarou o homem que avançava em sua direção, passo a passo, e recuou instintivamente.
Ela já não sabia se estava mais furiosa por ter percebido tudo tarde demais ou desesperada por se sentir completamente presa ao controle dele. Os olhos ficaram vermelhos quando perguntou:
— Você fez isso para me vigiar?
Ela se virou imediatamente, mas esqueceu que, minutos antes, tinha usado todas as forças para arrastar o aparador até a porta. Agora tentava empurrá-lo de volta, sem sucesso.
Fabiano observou o rosto dela, corado pelo esforço e pela irritação, os olhos marejados, enquanto ela tentava mover sozinha um móvel quase do tamanho do próprio corpo.
O semblante dele escureceu.
Num instante, avançou até ela, segurou-lhe o braço e a puxou para os próprios braços. Com a outra mão, empurrou o aparador para o lado com facilidade.
Depois baixou os olhos para a mulher presa contra o peito dele, humilhada e tomada pelo ódio.
— E com essa força toda aí, o que você pretende fazer?
Ivone ergueu o rosto e, de repente, desistiu de resistir:
— Vai atrás da sua Maia! Só para de aparecer na minha frente, está bem?
— Não existe "minha" Maia.
O olhar profundo de Fabiano permaneceu fixo nos olhos dela.
Ivone soltou uma risada sem humor:
— E quem liga para isso?
— Fala direito.
— Você não gosta de ouvir, não é? — Ela ergueu o queixo para encará-lo. — Vai para o inferno! Seu desgraçado! Seu lixo!
— Cala a boca.
Fabiano segurou o queixo dela, forçando-lhe a mandíbula. Os insultos saíram abafados e confusos. Mesmo assim, ela continuava tentando xingá-lo.
A respiração dele ficou mais pesada.
Virando a cabeça, notou a mala parada perto da porta do quarto. Não sabia se era a mesma que ela havia trazido do aeroporto ou se já tinha arrumado tudo outra vez.
Pouco depois, Ivone perdeu o fôlego para continuar discutindo.
Ele baixou os olhos para os lábios dela, pálidos demais. Desde que entrara pela varanda, aquela imagem não saía da cabeça dele.
Ao se lembrar de que ela tinha sido levada ao hospital na noite anterior por causa do sangue que havia vomitado sem explicação, o peito dele tornou a se apertar.

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