"Uma avaliação inicial indica que a falência múltipla dos órgãos foi causada por fome prolongada, agravada por uma infecção de gripe. O tempo de óbito não ultrapassou vinte e quatro horas...", a voz do legista soou nos ouvidos de todos.
"Encerrando a operação, são apenas dois moradores de rua", a voz do policial ecoou novamente. "Avisem o cemitério para fazer o procedimento direto."
O policial percebeu que não conseguiria arrancar nenhuma informação de Katia, então mandou que levassem os dois corpos dali.
Katia ergueu a cabeça e observou enquanto os policiais carregavam as duas macas. Mastigando um pão embolorado que tinha encontrado no lixo, ela finalmente não conseguiu conter o choro.
Soluçou algumas vezes, estendendo as mãos sujas na direção das macas que se afastavam, mas logo as recolheu.
Ela tinha mentido.
Ela conhecia aquelas duas pessoas.
Três dias atrás, Matheus ainda tossia enquanto dividia com ela metade de um biscoito; Adriana, mesmo doente, havia espantado ratos da rua com as próprias mãos para protegê-la.
Mas agora, ela só podia assistir enquanto a polícia colocava seus pais em sacos mortuários, tratando-os como dois sacos de lixo, sem poder fazer nada.
Ela não tinha nada, nem sequer comida para si mesma, e muito menos dinheiro para comprar um túmulo decente para eles. Talvez, ser levado pela polícia fosse mesmo o melhor destino.
Pelo menos, seria melhor do que apodrecer aqui até o fim...
Do outro lado, o carro de Jessica estava conseguindo despistar o SUV que os seguia. O segurança do banco da frente virou na rua do Centro Antigo.
Ali o movimento era intenso, e os perseguidores não ousariam agir em público. Por coincidência, uma viatura da polícia apareceu, e o SUV, talvez ao notar a presença policial, desistiu da perseguição.
"Senhora, tem uma viatura policial à frente", avisou o motorista, diminuindo a velocidade.
Jessica levantou os olhos.



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