Christian Müller –
O sol já estava alto quando ela me chamou.
Amanda não disse nada direto, não pediu com palavras bonitas, não fez rodeios. Apenas entrou no escritório novamente, com os olhos inchados, mas secos. Ela me olhou como se quisesse dizer mil coisas, mas escolheu a mais simples:
— Você pode me levar até onde ela está?
Eu soube imediatamente do que ela estava falando.
Assenti.
Não falamos mais nada. Apenas saímos.
Dominic ficou na porta da casa, segurando Tereza nos braços, como se dissesse silenciosamente que estaria esperando por ela. Amanda não o encarou. Talvez não conseguisse.
Talvez fosse apenas medo de desmoronar novamente.
O caminho foi silencioso.
Um silêncio espesso, que apertava o peito. A estrada parecia mais longa do que era de fato. Vi as mãos dela tremerem levemente sobre o colo. Amanda olhava pela janela, mas eu sabia que os olhos dela não viam a paisagem. Estavam presos em outra época, em outro rosto, talvez no de uma mulher que ela nunca conheceu.
Estacionei o carro no ponto mais afastado do cemitério. Queria que tivéssemos algum tempo sozinhos, longe de olhares. Peguei as flores que tinha comprado no caminho — lírios brancos, os preferidos da minha mãe.
Amanda desceu do carro com passos contidos. Seus olhos varriam o lugar com cautela, como se procurassem por algo que nunca souberam que existia.
— Aqui. — falei, indicando com o queixo o caminho estreito de pedras irregulares.
Caminhamos lado a lado.
A sepultura era simples. Mármore escuro, limpo, com o nome dela gravado em letras douradas já desgastadas pelo tempo: Helena Müller.
Amanda parou ao meu lado e olhou fixamente para o nome. Não disse nada por longos minutos.
— Esse nome... — ela murmurou, como se estivesse testando o som — Nunca imaginei que um nome me causaria tanta dor.
Ela se ajoelhou, com cuidado, como se não quisesse perturbar o descanso de quem estava sob aquela terra. Estendeu a mão e passou os dedos com delicadeza sobre as letras gravadas.
— Eu sonhava com você... Mesmo sem saber quem era. Sempre imaginei que havia alguém... alguém que me deixou. E passei a vida tentando não odiar essa pessoa.
Fiquei quieto.
A cena diante de mim me doía de uma forma estranha. Como se uma parte de mim estivesse revivendo a mesma dor de novo, só que agora através dos olhos de alguém que também tinha perdido.
Amanda levou as mãos ao rosto e chorou. Não como antes, com aquela raiva da revelação ou com a dor da traição. Dessa vez, era um choro limpo, puro, como se lavasse a alma. Como se estivesse finalmente dizendo adeus a algo que ela nem sabia que precisava deixar ir.
— Eu queria saber se ela me quis... — sussurrou — Queria saber se ela lutou. Ou se simplesmente me entregou de olhos fechados.
Me abaixei ao lado dela e deixei as flores sobre o túmulo. Os lírios balançaram com o vento.



— Você precisava estar aqui. — falei — E ela precisava ser visitada por quem é de verdade.
Amanda se virou e me abraçou. Um abraço longo, silencioso. Não havia palavras para aquilo. Era como se os laços invisíveis finalmente tivessem se alinhado.
— Eu não prometo estar pronta para aceitar tudo agora, mas eu vou tentar. Por ela. Por mim. E por você também.
— Eu não tenho pressa. — falei, tocando a cabeça dela de leve — Somos irmãos. Vamos passar a vida inteira aprendendo a ser isso.
E pela primeira vez, aquelas palavras pareciam a acertar em cheio. Eu então, tirei um lenço de dentro do paletó e a estendi para que limpasse os olhos.
—Quer que eu a deixe aqui um instante a sós? – Perguntei tentando a dar privacidade. As vezes tivesse algo mais, preso em sua garganta.
Ela balançou a cabeça em negação e respirou fundo.
—Não precisa. Haverá outros momentos. – Disse ela se virando para me olhar. —Obrigada Chris.
Eu sorri e assenti, girando os pés para sair dali.
Caminhamos de volta devagar, o silêncio agora mais leve. Como se, de alguma forma, a dor tivesse dado lugar a uma nova esperança.
No fundo do peito, algo em mim dizia que aquele era o começo de algo novo.
Não doía menos, mas fazia mais sentido para mim.

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