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Caminho traçado: Resgatada pelo inimigo romance Capítulo 70

Depois da conversa que teve com Hector à beira do mar, algo pareceu mudar entre eles. Tanto que a convivência pareceu se tornar mais leve, quase natural. O clima tenso que costumava pairar entre os dois deu lugar a momentos de silêncio confortável e até pequenos sorrisos trocados durante o dia.

Ao longo dos dias, passaram a tomar café da manhã juntos à mesa. Não falavam muito, mas quando falavam eram coisas simples: sobre o tempo, as notícias. As conversas ainda eram cuidadosas, como de quem caminhava em solo instável, no entanto, eram reais.

Assim, a semana passou.

Durante esses dias, Ava encontrava conforto na companhia de Doris. As duas costumavam conversar longamente pela tarde, sentadas no jardim enquanto o sol desaparecia no horizonte.

— Você pretende trabalhar para o Hector por quanto tempo, Doris? — Ava pergunta, enquanto nota Doris bordando alguma coisa.

Sorrindo, com os olhos semicerrados pela luz do fim da tarde, Doris responde:

— Se ele me permitir, até eu morrer.

Mesmo que esperasse por aquele tipo de resposta, Ava fica surpresa pela sinceridade.

— Tudo isso?

— Eu vivi a minha vida toda em torno dele… — diz Doris, com um suspiro profundo. — Não sei o que faria se não tivesse mais a oportunidade de estar aqui.

— Por mais que eu entenda que você o ame, não devia ter feito isso. Devia ter pensado mais em você também.

— Você diz isso porque ainda não é mãe — responde Doris, sem pensar muito, mas se arrepende no mesmo instante ao notar a expressão no rosto de Ava mudar. A tristeza surge quase imediata nos olhos dela. — Me desculpa — diz ela, apressadamente, tocando de leve o braço de Ava.

— Não se preocupe — Ava murmura, desviando o olhar para o vaso de plantas ao lado da cadeira onde está sentada.

Um silêncio se instala por um momento, até que ela decide falar, baixinho:

— Depois do que aconteceu… eu não sei se um dia poderei me tornar mãe.

Doris arregala os olhos, surpresa.

— Não diga isso. Você é jovem, cheia de saúde… — declara com a voz animada.

— Mas tenho dificuldade para engravidar — revela, com a voz chorosa. — Estava tentando há anos… fiz exames, passei por tratamentos. Tentei de tudo e quando aconteceu… — a voz dela falhar.

Ava não consegue mais falar, um nó se forma em sua garganta, parecendo prender as palavras.

Doris não diz nada de imediato. Apenas se aproxima mais e segura a mão dela com ternura.

— Às vezes… os milagres chegam quando a gente menos espera.

Ava sorri, mas é um sorriso triste. Ela gostaria de acreditar. Queria mesmo.

— Não sei se isso vai acontecer — comenta, com um sorriso irônico e amargo. — Já que não me deito com o homem com quem me casei.

Ela continua, num tom mais baixo, quase como um desabafo:

— E mesmo quando me separar do Hector… não sei se terei mais interesse em relacionamento algum. Já fui machucada o suficiente para uma vida inteira.

Observando em silêncio por um momento. Doris percebe que aquela conversa estava indo para um lugar mais delicado do que ela imaginava. Mas, ao se lembrar do dia em que viu os dois saindo de mãos dadas e de como Ava parecia confortável ao lado dele, decide falar.

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