Não era um convite para a família Siqueira, mas um convite nominalmente dirigido a Murilo.
Cecília fez as contas mentalmente. Faltava menos de um mês para o casamento de Heitor e Nicole.
O ar lá fora estava puro e abundante. Ainda assim, por algum motivo, ela sentiu uma sensação de sufocamento.
— Então, quando você pretende voltar para Belnorte? — Ela perguntou, desviando o olhar do convite.
— Não pretendo ir ao casamento. A data é mais ou menos na época prevista para o nascimento do seu bebê. Tenho medo de perder o parto. — Murilo respondeu.
— Você não é o pai da criança. Se perder o nascimento, perdeu. Qual é o problema? — Cecília não pôde deixar de olhar para ele.
— Mas sou o padrinho. Tenho que ficar ao seu lado. — Murilo respondeu sem hesitar. — Não ficaria tranquilo em deixar você aqui em Santa Marina, sozinha com o bebê, e Manuela, uma mãe solteira, também criando o filho sozinha.
Duas mulheres criando os filhos e levando a vida sozinhas. Realmente, era uma situação bastante desoladora.
Cecília compreendeu e acolheu de coração aquele carinho e aquela preocupação.
— Volte quando tiver que voltar, Murilo. É verdade que fiquei muito brava com você, mas isso foi apenas porque você mentiu para mim sobre a Juju. Você me ajudou a esconder a gravidez até hoje. Tenho muito mais motivos para agradecer do que para culpá-lo. Nunca o culpei por isso. Não precisa ficar aqui para cuidar de mim.
Afinal, Murilo era de Belnorte. Não poderia ficar em Santa Marina para sempre. E Cecília não voltaria para Belnorte.
— Eu vou voltar. — Disse Murilo, com medo de que, se não concordasse, ela começasse a lhe dar um longo sermão sobre princípios e deveres. Afinal, pensando bem, ele não tinha nem o direito nem a posição para permanecer ao lado de Cecília. — Vou voltar uma semana antes do casamento!
Além disso, ir embora não significava que ele não poderia retornar mais tarde.
Cecília assentiu e tornou a olhar para o convite em sua mão.
— Posso dar uma olhada? — Num impulso, ela perguntou.
— Pode. — Murilo entregou-lhe o convite, com um certo desconforto na voz.
Cecília o pegou e abriu. Reconheceu a caligrafia.
Não era a letra de Heitor, era de Tânia.
Ela olhou por alguns segundos, fechou o convite e o devolveu a Murilo.

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