Na manhã seguinte, quando Ofélia acordou, sua cabeça doía muito.
Já fazia sete anos desde a última vez que ela tivera um pesadelo. Kevin sempre conseguia mexer com suas emoções com facilidade.
Ofélia pegou um comprimido de ibuprofeno na mesa de cabeceira e o engoliu seco.
Ao sair do quarto, viu que Lucas já estava de pé, vestindo o uniforme escolar de estilo britânico e um avental enquanto preparava o café da manhã.
Ele preparava sanduíche de bacon com abacate, acompanhado de mingau de gergelim preto. Ofélia sorriu discretamente — Lucas continuava conhecendo-a como ninguém.
Embora ela fizesse tarefas variadas na empresa, o setor de inteligência artificial estava em ascensão e a pressão do chefe era enorme; nos últimos anos, ela perdera muitos fios de cabelo.
Durante o café da manhã, Ofélia perguntou:
"Hoje a mamãe te leva para a escola, tá bom?"
Lucas comia com elegância e só respondeu depois de engolir a comida:
"Aquele homem infiel te incomodou de novo?"
Ofélia sabia que ele se referia ao seu chefe, diretor do departamento de pesquisa e desenvolvimento, chamado Chen.
Lucas conhecia bem a situação da empresa, sabia que nos últimos anos o Gerente Paulo frequentemente criava obstáculos para ela.
Uma vez, quando Ofélia e Lucas saíram para passear, flagraram o Gerente Paulo beijando uma jovem de pouco mais de vinte anos.
A jovem claramente não era sua esposa, pois a foto de fundo do perfil do Gerente Paulo mostrava ele com a esposa e o filho.
Isso só comprovava uma regra de ferro: quanto mais um homem gosta de exibir seu casamento feliz nas redes sociais, mais propenso ele é a trair.
Desde então, Lucas passou a se referir ao Gerente Paulo como "homem infiel".
E esse termo se tornou universal: sempre que algum colega de Ofélia cometia uma traição, Lucas o chamava de "homem infiel".
Para cá e para lá, era sempre infidelidade — Lucas parecia especialmente sensível a essa palavra.
Só ontem e hoje Ofélia começou a entender o motivo.
"Ainda que não seja necessário, já que tem o transporte escolar, fico muito feliz quando você me leva ao jardim de infância, mamãe."
Ofélia sentiu uma pontada no peito. Lucas era independente desde pequeno: escolheu a própria escola, pagava as mensalidades, até o transporte escolar foi ele quem contratou. Ela não ajudara em nada.
Às vezes, ela conversava sobre isso com Lucas, mas o filho sempre respondia que, aos olhos dele, ela era uma mãe nota dez.
Quando ouviu isso, Ofélia chorou até acabar uma caixa de lenços.
...
No caminho para o jardim de infância, Ofélia não se conteve e lhe deu mais um beijo.
Sentados lado a lado no ônibus, Lucas percebeu o toque úmido na bochecha e seu rosto se fechou por um instante.
"Mamãe, em público, por favor, cuidado com a sua imagem."
Ofélia riu baixinho. Lucas nunca gostara de sentimentalismos e era um pouco orgulhoso, o oposto dela. Mas não importava como fosse o filho — ele sempre seria a sua versão preferida.

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