— Não... vá embora...
— Por quê? Por que... não quer nem olhar para mim...?
— Não me deixe sozinho...
Em meio à névoa dos sonhos, Guilherme Serra viu uma criança de uns três ou quatro anos.
Era um menininho.
No entanto, ele não conseguia ver o rosto da criança nitidamente.
O garoto morava numa casa enorme.
Mas, além dele, não havia mais ninguém ali dentro.
A casa, vazia e silenciosa, lembrava uma mansão assombrada.
Quanto tempo fazia que ele não via o pai?
Ele não sabia.
E quanto tempo fazia que não via a mãe?
Também não sabia.
A única pessoa que conseguia ver era a empregada contratada pelos pais.
Ele nunca passava fome — a empregada preparava suas refeições.
Mas, nos dias de tempestade, não podia se aconchegar nos braços do pai ou da mãe.
Sentindo-se desamparado, ele estendia suas pequenas mãos à empregada, numa súplica silenciosa.
Desejava que ela o pegasse no colo, lhe desse um beijo, o confortasse.
— Senhorzinho, fique no quarto que assim não vai ter medo da chuva.
A empregada pegava a mão do menino, levava-o até o quarto, sentava-o na cama, verificava as janelas e fechava bem a porta.
Por melhor que fosse o isolamento da casa, o trovão ainda retumbava nos ouvidos do menino, que se enfiava debaixo das cobertas, tremendo de medo.
...
Hoje era o aniversário do garoto.
Normalmente, a empregada preparava três pratos, mas hoje fez cinco.
Não havia bolo.
Nem velas.
Mesmo que a família pudesse comprar.
Ninguém havia preparado nada para ele.
Por isso, também não havia desejo a ser feito.
O menino sabia: mesmo se pedisse, seu desejo não se realizaria.
— Senhorzinho, coma devagar, viu?
A grande mesa de jantar estava cheia de pratos, e o pequeno comia ali — sozinho.
Enquanto comia em silêncio, lágrimas escorriam por seu rosto.
Cada prato parecia ter um leve gosto amargo.

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