O primeiro sinal de que algo estava errado foi o teto.
Ainda meio adormecida, minha visão se ajustou à penumbra do quarto e, antes mesmo de entender o que estava acontecendo, meus olhos encontraram uma rachadura discreta no canto do teto. Uma fissura fina e comprida, daquelas que sempre estiveram ali, mas que, com o tempo, a gente se acostuma a ignorar.
Meu estômago revirou.
Pisquei algumas vezes, sentindo o coração acelerar sem motivo aparente.
O segundo sinal foi o cheiro.
Não era o aroma amadeirado da colônia de Nicolas misturado com o leve resquício de vinho da noite anterior. Não era o perfume dele impregnado nos lençóis ou o toque sutil de tinta e papel fotográfico que ainda flutuava no casarão.
Não.
O cheiro era outro.
Sabão em pó comum, um leve perfume de lavanda que eu conhecia bem e um frescor característico de manhãs ensolaradas entrando pela janela.
Enquanto eu permanecia deitada, encarando o teto com a rachadura que sempre esteve ali, flashes da noite anterior inundavam minha mente como um soco no estômago. Nicolas. Seu toque, sua voz rouca sussurrando promessas ao pé do meu ouvido, o brilho nos olhos quando ele disse que me amava. Ele me amava.
Meu coração deu um salto, e meus dedos deslizaram automaticamente até minha mão direita, buscando o anel. O anel.
Mas minha pele estava nua. Vazia.
O anel não estava mais ali.
Minha respiração falhou. Meus olhos se fixaram na minha própria mão, como se o simples fato de olhar com mais atenção pudesse trazer aquele símbolo de volta. Mas ele não estava.
O que estava acontecendo?
Olhei ao redor, e a confirmação veio como um soco.
O quarto era pequeno, mas organizado. As paredes pintadas em um tom bege, o armário branco com as portas de correr, a mesinha de cabeceira com meu abajur antigo e alguns livros empilhados. Minha cama, com o edredom macio que eu adorava e que havia sumido da minha vida há tempos.
Não. Não podia ser.
Com um nó na garganta, deslizei as pernas para fora da cama e toquei o chão frio. A sensação real e sólida me fez estremecer. Meus pés caminharam por conta própria até a janela, e quando puxei a cortina, meu estômago despencou.
O prédio da frente estava lá.
Alto, cinza, com as mesmas janelas abertas e varais improvisados nas sacadas.
Eu não estava mais no casarão onde ocorreu a exposição de Nicolas.
Eu estava no meu antigo apartamento. Meu apartamento de... antes.
Meus dedos apertaram o tecido da cortina enquanto eu tentava controlar minha respiração. O medo se misturava à confusão de forma quase sufocante.
O que está acontecendo?
Me virei devagar, observando cada detalhe do quarto. Minha penteadeira estava no mesmo lugar, bagunçada com maquiagens e bijuterias espalhadas. Meu espelho inclinado, refletindo meu próprio rosto pálido e olhos arregalados.
Deus.
Isso não era um sonho.
Isso estava realmente acontecendo.
Meu coração martelava dentro do peito quando saí do quarto, hesitante, como se a qualquer momento a realidade fosse mudar e eu fosse acordar de verdade.
Mas tudo continuava ali.
O sofá com as almofadas desarrumadas. A TV desligada. O som do celular ecoava pela sala, conectado à caixa de som Bluetooth sobre a mesa de centro. A mesma música que tocava naquele dia, exatamente como eu lembrava. Cada detalhe estava ali, como se o tempo não tivesse avançado nem um segundo. O balde com o pano de chão ainda úmido no canto da sala.
A chave girou na fechadura, e eu congelei.
Minha mente ainda estava embaralhada pelo turbilhão de pensamentos sobre Nicolas, o anel desaparecido do meu dedo e a realidade distorcida que me cercava.
Mas quando a porta se abriu e Miguel entrou, o choque foi como um soco no estômago.
E eu estava aqui. Com ele.
Miguel deu um passo à frente, segurando meu rosto entre as mãos. O toque que um dia foi familiar agora me causava repulsa.
— Você tá bem? — Ele perguntou, analisando meu rosto com atenção.
Meu instinto imediato foi me afastar. Dei um passo para trás, saindo do alcance dele.
— Eu… estou só… Estou bem.
Isso é real.
E então, Miguel voltou a falar, e eu soube exatamente quais seriam as próximas palavras.
— Você pode buscar as crianças na escola?
Meu coração parou. O ar pareceu se esvair dos meus pulmões, e um frio percorreu minha espinha como um choque elétrico. Meus filhos. As palavras ecoaram na minha mente, repetidas vezes, como se meu cérebro não fosse capaz de processá-las de uma só vez. Meus filhos estão vivos. A constatação bateu com força, esmagando qualquer outra coisa que pudesse estar na minha cabeça. Um nó se formou na minha garganta, grosso e sufocante, enquanto meu peito se expandia com uma emoção tão intensa que quase doía. Era como se todo o universo tivesse girado e voltado a um momento onde o impossível se tornava real. Minhas pernas fraquejaram, meu corpo inteiro tremia, e eu soube, naquele instante, que nada mais importava.
— As crianças… — Minha voz falhou, meus olhos já estavam cheios de lágrimas.
Miguel me olhou como se eu tivesse enlouquecido.
— Sim, Ayla. As crianças. Nossos filhos.
Sem pensar duas vezes, eu saí correndo.
— Ayla? Ei!
Eu mal o ouvi.
Eu precisava vê-los.
Eu precisava ter certeza de que tudo era real.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor por Acidente - A Stripper e o Bilionário
Como vários livros desta plataforma nao6twm o final...
Libera todos os capítulos...