"Giovana"
Eu passei por todos em silêncio, com o rosto composto em uma máscara de seriedade e compostura que contrastava com tudo o que eu estava sentindo. Eu não olhei para o Anderson. Nem uma vez.
- É, parece que ele cansou de você, caloura. - A Maya se aproximou por trás e falou no meu ouvido. - Chegou a minha vez.
Eu não respondi, não olhei para ela, mas a raiva cresceu em mim acima de todas as outras coisas que eu sentia. Era tudo o que eu precisava e eu descarregaria toda a minha raiva e frustração naquele juri simulado.
Durante as duas horas seguintes de debates, réplicas e tréplicas, eu mantive meu foco nos jurados e no professor Antunes. Eu defendi aquele caso como se a minha vida dependesse dele, como eu fosse a vítima exigindo justiça. O Anderson estava ali, a poucos metros, e eu sentia a presença dele como se fosse um campo magnético, mas não permiti que meus olhos desviassem do meu objetivo. Se ele queria distância, eu lhe daria um oceano.
Quando o conselho de sentença se retirou para a sala secreta, o auditório mergulhou em um murmúrio ansioso. Eu comecei a organizar meus papéis com movimentos lentos e precisos. O Anderson se sentou ao meu lado na mesa da acusação. Tão perto, nossos braços quase se tocando. Por um segundo, o silêncio entre nós gritou mais alto que todo o falatório ao redor.
- Dra. Giovana. - Ele disse, com aquela voz impessoal que me cortava o coração como garras afiadas. - A sua explanação sobre as provas foi fundamental. Parabéns.
- Obrigada, Promotor. - Eu respondi, sem sair do personagem, sem olhar para cima, fechando o zíper da minha pasta. - Eu apenas terminei o que comecei.
Eu abri um livro e comecei a fingir que lia qualquer coisa, até que o professor voltou com os jurados e os demais professores.
- Todos de pé. O réu foi considerado culpado em todas as acusações. - O professor fez questão de usar cada detalhe da formalidade que um juri exigia e leu os quesitos, as votações e todo o resto da parafernalha que já não me interessava. - Vitória da acusação. As notas serão lançadas no sistema. Vocês estão dispensados. - Ele finalizou.
Eu apenas respirei fundo, sentindo um peso sair das costas, mas o peso no coração continuava lá. Houve comemoração e pelo canto do olho eu registrei o momento em que a Maya se jogou no pescoço do Anderson. Depois disso eu fiquei cega, me levantei bruscamente e saí apressada daquele auditório.
- Giovana. - Eu registrei a voz do meu pai chamando, mas eu não parei. Agora quem precisava de silêncio era eu.
Eu bati a porta do meu carro e liguei o motor imediatamente, saindo do estacionamento como se fugisse de um ataque zumbi. Pelo retrovisor eu vi alguns rostos conhecidos ficando para trás, agitando os braços. Mas nenhum deles era o Anderson. As lágrimas finalmente caíram dos meus olhos enquanto eu acelerava. Por que era tão difícil para ele entender que eu só queria cuidar dele?
O telefone tocava incessantemente na minha bolsa. Eu parei no semáforo e peguei sentindo um lampejo de esperança, mas não era ele. Era o meu pai.
- Agora não, pai! - Eu supliquei quando atendi.
- Giovana, eu sou o seu pai e é bom você não desligar na minha cara. - Ele avisou. - Onde você está?
- Vou dar uma volta.
- Giovana, estão todos indo para o bar para comemorar a vitória de vocês. O bar vai abrir mais cedo só para vocês. Você tem que ir para lá. - Meu pai falou calmamente.
- Eu não vou. Você sabe porque. E você vai respeitar isso. - Eu estava chorando e não escondi isso.
Eu sabia que, naquele momento, o bar do meu pai deveria estar explodindo de alegria. Eu conseguia imaginar o Rui e a Bianca rindo, o meu pai servindo as rodadas de comemoração... até a D. Fátima eu enxergava lá. E o Anderson. Eu conseguia vê-lo com aquele meio sorriso contido, tentando ser o profissional que todos esperavam, talvez já cedendo aos apelos da Maya, até mesmo a levando para o depósito de bebidas. E só de pensar nisso o meu mundo desabou de novo.
Eu fiquei ali por horas. O sol se pôs, as luzes da cidade acenderam e o meu celular, desligado no banco do passageiro, parecia um peso morto. Eu queria ligar. Queria pedir desculpas. Queria dizer que o amava. Mas o medo de que eu tivesse quebrado o que havia entre nós me paralisou.
À medida que as lágrimas pararam de cair, eu fui ficando congelada, como uma estátua, naquele estado em que a dor é tão intensa que o cérebro desliga para que a gente não sinta. Eu não vi o tempo passar, nem o frio da noite entrar pelas frestas do carro.
Até que um farol alto cortou a escuridão do mirante, iluminando o interior do meu carro. Eu nem me mexi, não conseguia, achei que fosse apenas mais um casal em busca de privacidade. Mas o som da porta batendo, os faróis se afastando e os passos pesados no cascalho me fizeram despertar.
Antes que eu pudesse olhar para o lado, a porta do motorista foi aberta. Aquela figura alta, com os cabelos bagunçados de quem tinha passado as mãos muitas vezes e a camisa com o primeiro botão aberto, tinha nos olhos uma mistura de alívio e preocupação.
- Eu disse que você nunca estaria sozinha e que eu sempre te encontraria, Filhota. Em qualquer lugar. - A voz grossa e embargada do Bóris preencheu o espaço.
Ele não perguntou o que houve ou tentou explicar nada. Ele apenas me puxou para fora do carro e me envolveu naquele abraço de urso que cheirava a casa e segurança. Ele tinha usado o GPS do carro que ele me deu. Ele tinha cumprido a sua promessa. Ele tinha vindo me buscar porque sabia que, naquele momento, a "Ferinha" tinha desistido de lutar.
- Vamos pra casa, filhota. - Ele sussurrou, dando um beijo no topo da minha cabeça. - Você está gelada. - Ele tirou o paletó e colocou em volta dos meus ombros.
Eu me deixei levar, chorando baixinho contra o peito dele. Mas enquanto o Bóris me guiava para o banco do carona, eu olhei uma última vez para a estrada escura, me perguntando se o Anderson sabia que, enquanto eu era resgatada, o meu coração ainda estava despedaçado, esperando por ele e por uma sentença que eu não sabia se seria capaz de suportar.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Pq está travado, não consigo ler os próximos capítulos, depois do 265 Que inclusive é a parte da giovana...
Por que o livro da Giovana e do Anderson está ficando em meio ao livro do Jose Miguel e da Eva. Ficou muito bagunçado isso...
Faltou apenas os três últimos capítulos completos, poderiam liberar ne?...
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...