"Giovana"
Nós ficamos ali, abraçadas rindo e chorando ao mesmo tempo. Era um milagre. Depois dos quarenta anos e depois de ter tentado tanto, driblando todas as estatísticas e a ansiedade, a minha tia estava gerando uma vida sem precisar de praticamente nenhuma intervenção além da própria natureza ajudada por uma forcinha dos hormônios.
- Eu não consigo acreditar, Gi... - Ela soluçava contra o meu ombro. - Um bebê. Um bebezinho nosso.
- Acredita, Tia Rubia! Eu não disse que eu era pé quente? - Eu me afastei para olhar o rosto dela, que agora irradiava uma luz que nenhuma câmera no mundo conseguiria capturar.
- Parabéns, mamãe! Nós vamos cuidar muito bem de você e desse bebê. - O Sr. Molina sorriu para a minha tia daquele jeito fofo dele. - E olha que momento lindo, você vai dividir isso com a sua irmã. Ela esteve aqui semana passada.
- Isso vai ser maravilhoso! - A minha tia comemorou ainda emocionada.
- Um irmãozinho e um priminho de uma vez! Ai, Dr. Gatíssimo, a gente podia convencer a Nana a engravidar de novo também. Já imaginou? Vopu roubar todos eles e esconder no meu apartamento! - Eu planejei e ele riu.
- São muitos bebês, Gi, você não vai dar conta de todos. Principalmente agora com a faculdade e o trabalho no bar. - O médico me lembrou e eu fiz um biquinho, mas tive que concordar com ele.
O Dr. Molina nos deu um tempo para processar e, depois, nos passou as recomendações. Como era uma gravidez tardia e conseguida em meio a um tratamento hormonal, as primeiras semanas exigiam cuidado redobrado. Repouso relativo, nada de estresse e, acima de tudo, pé no freio.
- Rúbia, você é uma mulher saudável e muito ativa, mas tem que se lembrar que está em uma idade materna avançada, por isso nós precisamos ter atenção redobrada. Os riscos no primeiro semestre são significativamente maiores. - O Dr. Molina avisou.
Foi aí que a expressão da Tia Rúbia mudou de êxtase para um pânico controlado e ela nem esperou que saíssemos da sala do médico.
- Gi... você não pode contar pro Rubens. Pra ninguém! - A minha tia pediu.
- O quê? - Eu arregalei os olhos. - Tia Rúbia, está maluca? O Tio Rubens vai surtar de felicidade! Você precisa contar pra ele!
- Não até passarem os três primeiros meses, Gi. - Ela segurou o meu braço com força, os olhos suplicantes. - Você ouviu o Dr. Molina, riscos significativamente aumentados. Gi, eu tenho 43 anos e depois de tudo. Se eu contar e... - Ela engasgou. - O Rubens vai morrer por dentro. E não vai ser fácil conseguir outro milagre. Eu prefiro carregar esse medo e essa expectativa sozinha por enquanto. Por favor, me promete que não vai contar.
- Tia Rúbia, isso não vai dar certo! Lembra a minha mãe? Não queria contar para o Bóris. O que aconteceu? O meu Gracinha surtou achando que eu estava grávida. E pior, agora eu não posso ter um mal no estômago que a primeira coisa que ele pensa é que eu estou grávida.
- Sua mãe me falou sobre isso, Gi. - O Dr. Molina me olhou por um momento. - Olha, eu sei que você tem uma médica muito boa, mas porque você não muda o método que você usa? Você é muito jovem, está na faculdade, tenho certeza de que um bebê não está nos seus planos nos próximos anos. - Ele abriu a gaveta e me entregou um folheto explicativo de um implante subcutâneo. - É um método muito seguro. Fala com a sua médica.
- A minha médica é boa, Dr. Gatíssimo, mas ela está para se aposentar... - Eu pensei por um momento. - Você bem que poderia me atender, né?! Olha só, você já atende a família toda.
Ele me encarou por um momento, ciente de que eu estava fora do público-alvo dele por não estar tentando engravidar, mas ele era ginecologista antes de ser obstetra.
- Você sabe o que isso significa, Gi? - Ele me perguntou sério e eu balancei a cabeça sem entender. - Significa que eu não vou me aposentar tão cedo e a culpa será sua.
- Isso é um sim? - Eu perguntei empolgada e ele concordou. - Ótimo, então vamos começar por esse negócio aqui para o meu Gracinha parar de surtar.
- Eu vou pedir uns exames e marcar para você na semana que vem. - Ele riu e se virou para o computador.
- Tá tudo muito bom, você já resolveu o seu lado, agora resolve o meu. Gi, promete para mim que não vai contar pra ninguém. Olha, você já vai levar até uma listas de exames para o Gracinha ver que você realmente veio ao médico. - A minha tia insistiu.
Eu respirei fundo. Mais um segredo. Mais uma mentira por omissão para a minha coleção daquela semana. Mas olhando para o desespero nos olhos dela, eu não tive como negar.
- Tá bom, tia. Eu guardo o seu segredo até o fim desse primeiro trimestre. Mas você vai ter que se cuidar! Vai diminuir o ritmo naquele estúdio, dormir melhor e comer bem. Nada de café. Se eu desconfiar que você não está se cuidando, eu coloco o Gracinha atrás de você e você sabe, ele é neurótico com alimentação de grávida. - Eu a ameacei e ela riu, me puxando para um abraço.
- Obrigada, Gi. Isso significa muito para mim. - Ela falou com a voz embargada.
- Você precisa reduzir o ritmo, Rub. O Rubens anda preocupado com você, ele disse que você está trabalhando demais. - A Hana comentou, as ainda olhava entre a minha tia e eu. - Eu só não entendo como vocês duas têm a coragem de vir a este hospital e não me procurarem.
- Quem disse que não? A gente ia fazer isso agora, não é, Gi? - A Tia Rúbia me cutucou.
- É, a gente ia fazer isso agora. - Eu concordei. - Mas a gente só ia te dar um beijo rápido, porque eu tenho compromisso com o Gracinha.
- É, infelizmente não dá nem pra gente tomar um café. - A minha tia emendou.
- Ingratas! - A Hana brincou, mas finalmente parecia ter acreditado nas nossas desculpas. A porta do elevador se abriu. - Já que vocês estão com pressa, eu não vou atrapalhar. Cuidem-se, meninas. - Ela nos deu um beijo rápido e saiu do elevador.
Assim que as portas se fecharam, eu e a Tia Rúbia soltamos o ar ao mesmo tempo.
- Essa foi por muito pouco! - Eu murmurei, sentindo meu coração na boca. - O pior é que seram mais dois meses disso.
Quando eu deixei a minha tia no estúdio de fotos, eu ainda sentia, a sensação de felicidade pelo milagre dela ainda vibrava no meu peito, mas foi murchando aos poucos conforme eu dirigia em direção ao apartamento do Anderson.
Eu tinha prometido passar lá para dizer como tinha sido a "minha" consulta médica. Pelo menos eu tinha aqueles exames para fazer e isso o deixaria menos inquieto. Eu dei um sorriso irônico para o trânsito.
Eu subi o elevador do prédio dele retocando o batom, tentando manter a pose de "tá tudo bem". Mas no momento em que ele abriu a porta do apartamento, a felicidade pela Tia Rúbia evaporou. O clima ali dentro estava tão pesado que dava para cortar com uma faca. O Anderson me encarou com a decepção brilhando em seus olhos.
A mãe do Anderson, D. Fátima, estava sentada no sofá com os braços cruzados e uma expressão de mágoa profunda. O Anderson gurava a porta, passando a mão pelo cabelo de um jeito que ele só fazia quando estava prestes a explodir de nervoso. E a Bianca... a Bianca estava num canto, pálida, olhando para a mãe com uma mistura de choque e indignação.
Eu congelei na porta. O bicho não ia pegar. O bicho já tinha pegado.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Pq está travado, não consigo ler os próximos capítulos, depois do 265 Que inclusive é a parte da giovana...
Por que o livro da Giovana e do Anderson está ficando em meio ao livro do Jose Miguel e da Eva. Ficou muito bagunçado isso...
Faltou apenas os três últimos capítulos completos, poderiam liberar ne?...
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...