Tina suspirou longamente e me abraçou.
Beijar e em seguida sentir remorso, já fazia parte da minha rotina.
Foram tantas festas na casa da Tina! O ano acabou, nos formamos e o meu pai não falou mais de casamento. Eu nem comemorei quando fiz dezoito anos!
Tina teve uma ideia audaciosa, que mudaria o meu destino para sempre. Ela estava no meu quarto, junto com Emília e Nina. Depois de terminado o ano letivo, ficamos só nós quatro, um grupo menor.
— Um baile! Ficou louca?— eu achei um absurdo.
— Um baile de máscara, amiga! Todos da escola vão participar, eu acho, mas vai ter muita gente bonita lá! Vamos rever todo mundo! Depois da formatura, o povo sumiu, vai ser um estouro rever todos aqueles gatos novamente!
Eu olhei para as outras e vi um brilho nos olhos delas.
— Como eu vou fazer para sair à noite daqui?
— Torce para o seu pai sair também. Ele ainda dá as escapulidas dele, não dá? — Tina estava sempre atenta.
Eu assenti apenas.
— Eu já comprei nossas entradas! vamos estar as quatro lá — ela comunicou.
Eu suspirei desanimada e decidi:
— Eu vou nesse baile. Logo o meu noivo volta para o Brasil e eu vou ser sua escrava!
As meninas comemoraram, me abraçando.
O meu pai andava estranho, pensativo, parecia preocupado.
Eu comprei um vestido através da Tina. Era azul claro, como um mar límpido. A máscara também estava perfeita, ninguém me reconheceria!
Chegou o grande dia. Eu fiquei na varanda torcendo para o meu pai sair. As meninas estavam num carro de aplicativo me esperando próximo a minha casa. Estava tudo certo.
Logo que o meu pai saiu, eu desci as escadas com os saltos e a máscara nas mãos, era quase meia noite.
Um segurança fazia a ronda pelo jardim e se assustou ao me ver.
— Senhorita! Quase não a reconheci.
— Abra o portão para mim!— Eu ordenei seca.
— Mas senhorita, o seu pai não vai gostar!
— Todos vão a esse baile, o meu pai com certeza não achou necessário lhe avisar que eu sairia a esta hora.
O homem olhou para o portão e viu três princesas mascaradas lá sorrindo e acenando.
— Eu vou com elas!— Eu disse me precipitando na direção delas.
— E o que eu digo para o seu pai? — O rapaz quis saber.
— Se ele der por minha falta, o que eu acho muito difícil, diga que eu pulei o muro!
— Eu não faria isso, seria muita ingenuidade acreditar que o seu pai engoliria uma desculpa dessa!
— Então quando ele chegar, pergunta-lhe se ele autorizou a minha saída. Assim lhe parece melhor?
O rapaz ficou confuso.
— Abra logo esse portão!— eu quase gritei.
Ele obedeceu e eu sorri para as minhas amigas, eu me sentia como se estivesse indo para a minha despedida de solteira.
Chegamos afinal. Era como estar num sonho. Meu primeiro baile, eu sentia que também seria o último.
As meninas foram se espalhando, encontrando seus pares para dançar e eu fui ficando distante do salão, como se o medo de ser descoberta me travasse.
Eis que surgiu um mascarado como num passe de mágica, vindo na minha direção. Ele tinha uma taça de champanhe na mão.
Ele tinha um charme sem igual, era simplesmente sedutor. Minhas pernas tremeram quando ele tocou o meu braço. Ele não disse nada, apenas me ofereceu a sua taça de champanhe. Eu bebi todo o líquido de uma só vez.
Ele sorriu achando graça e me tirou para dançar. Eu estava encantada. Aquele homem parecia um príncipe! O príncipe dos meus sonhos de menina moça.
Eu tive vontade de debochar, dizer que eu já sabia que fora selado desde o dia em que eu nasci.
O senhor Jaime Fontes apontou o dedo na minha cara com os olhos brilhando de ódio.
— Você não vai mais se casar com Arthur Martins.
— Não!— eu exclamei me segurando na cadeira, eu estava podre de bêbada!
— Não, você vai se casar com o pai, Romeu Martins!
Eu pisquei algumas vezes e antes que eu questionasse, meu pai explicou, um tanto confuso:
— Ele ficou viúvo, recentemente!
Eu caí num prato, deixando o álcool que eu bebi em excesso me sucumbi.
Minha mãe entrou no escritório correndo, desesperada. Eu estava no chão me desmanchando em lágrimas.
Ela olhou para o marido surpresa, então ele explicou:
— Eu lhe contei, ela já sabe que vai casar com o pai, ao invés do filho.
Minha mãe se agachou para chorar junto comigo.
Meu pai ficou impaciente e se retirou.
Trinta dias depois, eu estava na porta da igreja, onde eu já podia ver o meu noivo no altar. Ele não era velho, nem feio, ele era um príncipe. Eu tive vontade de apagar aquela noite com o mascarado.
Eu segurei o meu ventre e procurei acreditar que não estava grávida, mesmo porque, por estar tão embriagada, eu só tinha uma vaga lembrança daquela noite. O mascarado tinha uma tatuagem bem discreta na lateral da mão em forma de coração.
O meu pai me entregou ao meu estranho noivo. Algo me deixou perplexa, ele tinha a mesma tatuagem.
Eu não sabia se ficava feliz com aquilo, porque durante a cerimônia, eu vim a descobrir que muitos homens naquela igreja tinham a mesma tatuagem. Seria uma seita, ou todos os homens daquela família a usavam por tradição?
Aí meu meu Deus, foi uma confusão, eu quase desmaiei. Para onde eu me virava, tinha um homem elegante sorrindo exibindo a marca do pecado numa das mãos!

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