"Érick"
Depois da entrevista coletiva no meio da tarde, eu saí do escritório, o Alberto já me esperava do lado de fora e abriu a porta assim que eu me aproximei. Eu não precisei dizer nada, ele dirigiu direto para a casa da minha mãe e eu não mudei a direção, eu precisava me acalmar antes de ir até a Lorena, eu não podia meter os pés pelas mãos de novo. Quase todas as tardes eu ia a casa da minha mãe ver a Alice. Minha filha parecia bem mais feliz vivendo com a avó do que esteve nos últimos tempos comigo, até a raiva dela de mim parecia ter arrefecido.
- Papai! - A Alice veio correndo ao me ver chegar.
- Pequena, como você está hoje?
- Feliz, a semana já está acabando.
- Você está ansiosa pelo fim de semana?
- Eu adoro as manhãs de sábado, papai! - Ela sorriu, aquele sorrisinho que ela dava quando aprontava.
- Por que elas são tão especiais?
- Porque elas são mágicas. - Ela sorriu.
- Só porque nao tem aula, não é mesmo, Alice?! - A minha mãe apareceu na sala de estar e se sentou conosco.
- Ah, é! - A Alice deu uma risadinha.
- Vocês estão aprontando alguma coisa, não estão?
- Nós? Claro que não. - Minha mãe respondeu depressa. - Alice, vá até a cozinha tomar o seu leite com biscoitos enquanto eu converso com o seu pai um pouco.
- Sim, vovó. - A Alice saiu do meu colo, mas antes de se afastar ela se aproximou e falou bem baixinho: - Papai, a mágica está quase pronta. Logo, logo, a bruxa vai ser expulsa do castelo e a nossa família vai ser feliz de novo.
Antes que eu pudesse perguntar do que ela estava falando, ela me deu um beijo e correu para a cozinha.
- Do que ela estava falando, mãe?
- Ah, Érick, para a Alice a vida é um reino de magia. E eu não escondo as coisas da minha neta. Eu vi a sua coletiva hoje. Eu tento explicar as coisas para ela antes que ela escute coisas erradas na escola. Ela está feliz que você vai se divorciar. - Minha mnãe explicou.
- Ela parece muito melhor desde que veio ficar com você. - Eu confessei, me sentindo um péssimo pai por não ter sabido lidar com a minha filha.
- Ela está melhor. Ela agora tem esperança. E nós duas nos divertimos muito. - A minha mãe sorriu.
Eu passei um bom tempo com a minha mãe e a minha filha. Eu sentia falta da família e dos dias de paz que eu tive na minha casa. Eu sentia falta da Lorena.
- Vamos voltar para o escritório, senhor? - O Alberto me pergunto quando deixamos a casa da minha mãe.
- Alberto, você sabe onde a Lorena mora, não é mesmo?
Eu virei o rosto rápido em direção ao vidro escuro da lateral no momento em que duas batidas foram dadas no vidro que eu abaixei para dar de cara com uma ferocidade e uma seriedade implacáveis. Marcelina.
- Desce dessa porra desse carro agora mesmo, Albelini. Já estou de saco cheio de você vigiando a vila como se fosse um mafioso. - A Marcelina ordenou num tom severo que não deu nenhuma margem para negações. - Desce ou eu grito o seu nome no meio deste pátio e transformo a sua campana em um espetáculo público antes que o seu motorista consiga dar a partida. Saia.
Eu engoli o meu orgulho que já estava em frangalhos e abri a porta do carro. Fiquei de pé em frente a Marcelina, ela me encarava como se estivesse decidindo se ia abrir o meu peito e arrancar o meu coração comigo ainda vivo ou se cortaria as minhas extremidades primeiro começando pelos meus testículos. Eu era pelo menos uns vinte centímetros mais alto que ela, mas naquele momento ela me metia medo, muito medo.
- Oi, Beto! - Ela se abaixou e cumprimentou o motorista com um sorriso. - Vamos entrar?
- Menina, dessa vez eu vou recusar a cortesia. - O Alberto deu um sorriso cumplice. - Não quero ser dano colateral nessa... conversa. Espero que o senhor compreenda, Sr. Albelini.
- Covarde. - Eu falei baixo para ele que deu uma risada.
- Alguém tem que estar de pé para lhe socorrer, senhor. - Ele argumentou.
- Se sobrar alguma coisa para socorrer. - A Marcelina voltou a me encarar e eu senti de fato um presságio de morte. - Anda, Albelini. Você me expulsou da sua casa, mas eu quero falar com você dentro da minha.
- Eu não sei se a Lorena... - Eu comecei, mas a Marcelina me interrompeu.
- Ela não está em casa. Anda. - Ela se virou e seguiu em direção a vila.
Eu dei uma última olhada para o Alberto e segui a Marcelina como quem segue para o corredor da morte. Ela não estava feliz comigo e eu sabia que ela faria qualquer coisa para proteger a amiga.

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