A família Freitas costumava jantar cedo. No inverno, o pôr do sol tingia o céu de um tom suave e enevoado, tornando difícil distinguir a distância entre o horizonte e a proximidade.
Israel Rocha dirigia com tranquilidade sob aquela luz crepuscular. Pareceu pensar um pouco antes de responder à pergunta de Nathalia Ribeiro:
— Davi e você sempre foram muito determinados.
Nathalia se surpreendeu por um instante. Depois, sorriu e perguntou:
— Você acha que eu não deveria ter ido estudar fora?
Os nós dos dedos de Israel se apertaram instintivamente ao redor do volante.
— Você escolheu estudar no exterior para realizar seu próprio sonho.
Na época de estudante, Davi Freitas já era uma pessoa brilhante, alguém que chamava a atenção de todos. Israel sabia que Nathalia decidira se aprimorar fora do país para se tornar alguém à altura de Davi, para que um dia pudesse caminhar ao lado dele.
Mas logo após sua partida, aquele acontecimento mudou para sempre o destino de ambos.
Depois disso, Davi se casou. E Nathalia, por sua vez, optou por permanecer no exterior, só retornando há dois dias.
— Sim, realizei meu sonho. Por isso, não deveria me arrepender — disse Nathalia com um sorriso amargo. O crepúsculo que entrava pela janela banhava seu rosto, acentuando ainda mais seu ar melancólico.
Israel sentiu um aperto no peito; seus dedos estavam quase brancos de tanto apertar o volante.
Seguiu-se um breve silêncio dentro do carro.
— Chega desse assunto. Vamos falar de cinema? Sobre o protagonista do filme, quero te indicar alguém — Nathalia quebrou o silêncio, e seus olhos voltaram a brilhar.
O humor de Israel sempre se alinhava ao de Nathalia. Agora que ela mudara de assunto, ele a acompanhou, sorrindo:
— Claro, quero saber quem é esse sortudo.
Nathalia então mencionou um nome.
Israel arqueou as sobrancelhas, surpreso e animado:
— Ele é ótimo. Mas será que vai aceitar?
Nathalia sorriu:
Ao ver os sapatos femininos organizados no canto da entrada, José logo soube que a filha estava ali.
— Que cheiro bom! — José disse, enquanto trocava de sapatos e seguia para a sala, captando o aroma que vinha da cozinha.
Amanda saiu da cozinha trazendo uma travessa de costelinha ao alho, sorrindo:
— Pai, vai lavar as mãos, o jantar está pronto!
— Já vou! — respondeu José, deixando a pasta de trabalho de lado e indo lavar as mãos. Enquanto se lavava, comentou animado:
— A última vez que comi sua comida foi na época em que você se formou na faculdade. O tempo passa rápido demais!
Amanda, ao colocar os pratos na mesa, parou por um momento. Percebeu que o pai se lembrava.
Depois de formada, ela achou que teria mais tempo para passar com Davi. Então, decidiu aprender a cozinhar, querendo reviver a infância, quando o pai cozinhava para ela, e ela queria fazer o mesmo por quem amava: preparar refeições, sentar à mesa e desfrutar de momentos aconchegantes juntos.
Naquela época, ela voltou para casa para aprender a cozinhar com o pai, que, naturalmente, se tornou sua primeira “cobaia”.

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